O Lemtrada® (princípio ativo alemtuzumabe) é um medicamento biológico aplicado por infusão intravenosa, indicado para formas ativas de esclerose múltipla recorrente em adultos.
Sua característica mais singular: o regime de aplicação envolve apenas dois cursos de tratamento, com 12 meses de intervalo. Após isso, a maioria dos pacientes não precisa de novas doses — uma rotina diferente de qualquer outro biológico para EM.
Cada infusão custa em torno de R$ 18 mil a R$ 25 mil. Quando o plano de saúde nega a cobertura, a Justiça tem reconhecido o direito do paciente — especialmente em quadros refratários a tratamentos prévios.
Dois cursos. E depois?
No primeiro curso, o paciente recebe infusões em 5 dias consecutivos. Depois, espera 12 meses. No segundo curso, recebe infusões em 3 dias consecutivos. Em muitos casos, o tratamento termina aí.
Por que esse regime tão peculiar? O alemtuzumabe causa uma depleção profunda dos linfócitos B e T que carregam a proteína CD52. Quando essas células voltam (alguns meses depois), reaparecem em “composição reeducada” — com menos das células que atacam a mielina.
O efeito pode durar anos sem necessidade de novas doses. Apenas em casos de retorno da atividade da doença é que se considera um terceiro ou quarto ciclo.
Essa lógica é radicalmente diferente da maioria dos imunobiológicos para EM: enquanto Ocrevus, Kesimpta, Tysabri exigem aplicações periódicas por anos, o Lemtrada concentra tudo em duas semanas de infusão.
A contrapartida: vigilância de autoimunidade secundária por 4 anos
Essa “reeducação” do sistema imune não é sem custo. Em até 30% dos pacientes em estudos, o sistema reconstituído desenvolve doenças autoimunes secundárias.
As mais comuns são tireoidite e púrpura trombocitopênica imune. Mais raramente, doença renal autoimune. Por isso o seguimento prolongado é parte essencial do protocolo.
Por isso, depois de cada curso, o paciente entra em vigilância mensal (hemograma, função tireoidiana, urinálise) por 4 anos. Sem esse acompanhamento, o medicamento não é prescrito.
Esse seguimento prolongado torna o Lemtrada uma decisão ponderada: ele oferece eficácia alta e regime conveniente, mas exige uma estrutura de monitoramento que precisa estar garantida — incluindo cobertura pelo plano dos exames de seguimento.
Quanto custa o tratamento total
O Lemtrada é vendido em frasco-ampola de 12 mg em 1,2 mL. Cada frasco custa entre R$ 18 mil e R$ 25 mil em 2026.
A dose é de 12 mg por infusão. No primeiro curso (5 dias), são 5 frascos. No segundo (3 dias), são 3 frascos. O custo total do tratamento de 2 cursos fica em torno de R$ 150 mil a R$ 200 mil.
Comparado a outros biológicos para EM em uso contínuo (que somam R$ 100 a 200 mil por ano), o Lemtrada concentra esse valor em uma janela curta. O custo total ao longo de uma década pode acabar sendo menor que um tratamento contínuo prolongado.
Como medicamento de alto custo, o Lemtrada é alvo de negativas — em geral pela proximidade temporal das infusões ou pela exigência de seguimento intensivo.
Cobertura e os pontos de tensão com os planos
O alemtuzumabe está no Rol da ANS para esclerose múltipla recorrente ativa, com critérios das Diretrizes de Utilização (DUT) — em geral exigindo confirmação diagnóstica, atividade documentada e falha de outros tratamentos modificadores.
As negativas mais comuns acontecem em três pontos: “falha terapêutica não comprovada” (relatório precisa documentar surtos sob outros DMTs), “existe alternativa no Rol” (planos sugerem outros biológicos), ou “cobertura do seguimento de 4 anos não autorizada”.
Para situações fora dos critérios estritos do Rol, vale a ADI 7.265 do STF (setembro de 2025): cobertura possível mediante prescrição fundamentada, ausência de alternativa equivalente, registro Anvisa e evidência científica.
Caminho prático e tutela de urgência
Primeiro: negativa por escrito com justificativa e protocolo. Segundo: relatório neurológico — forma da EM (CID), surtos documentados, ressonâncias, EDSS, tratamentos anteriores e justificativa para o Lemtrada.
Em EM recorrente com atividade alta, o atraso pode permitir novos surtos e dano neurológico permanente. É cenário para tutela de urgência.
O juiz analisa probabilidade do direito e perigo da demora. A jurisprudência em biológicos para EM é favorável — decisões em Ocrevus, Kesimpta e Tysabri reforçam o entendimento. Veja o guia geral sobre o que fazer quando o plano nega medicamento.
Mais informações
Se você passou por uma negativa de cobertura do Lemtrada ou tem dúvidas sobre o caminho a seguir, pode entrar em contato com a Rosenbaum Advogados para que a sua situação seja analisada.