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Koselugo (Selumetinibe): cobertura em NF1 com neurofibroma plexiforme

Direito à Saúde, Remédio
Imagem editorial do Koselugo (selumetinibe) usado contra neurofibromatose tipo 1 (NF1) com neurofibroma plexiforme
Publicado: abril 29, 2022 Atualizado: maio 15, 2026
Tempo estimado de leitura: 7 minutos

O Koselugo® (princípio ativo selumetinibe) é o primeiro tratamento medicamentoso aprovado mundialmente para neurofibromatose tipo 1 (NF1) com neurofibroma plexiforme sintomático e/ou inoperável em pacientes pediátricos (≥ 2 anos) e adultos.

Aprovado pelo FDA em abril de 2020 (estudo SPRINT, Phase II) e pela Anvisa em 2022.

Marco histórico — antes do selumetinibe, não havia tratamento sistêmico eficaz para neurofibromas plexiformes; apenas cirurgia (frequentemente impossível pela infiltração em estruturas vitais) e cuidados de suporte.

Mecanismo: inibidor de MEK 1 e 2 — mesma classe do trametinibe (Mekinist) e cobimetinibe (Cotellic) usados em combo com BRAFi em melanoma. Em NF1, é usado em monoterapia — característica única na categoria MEKi (em melanoma sempre é combo).

Custo: R$ 50 mil a R$ 90 mil/mês conforme dose (ajustada por superfície corporal). Em crianças pequenas, dose menor; em adolescentes/adultos, mais alta. Tratamento contínuo até progressão ou intolerância — frequentemente anos.

Negativa frequente: indicação rara (doença genética rara), custo elevado, pediatria com necessidade de avaliação por endocrinologista/oftalmologista/cardiologista frequente, ANS recém-incorporou ao Rol.

NF1 e os neurofibromas plexiformes: a doença que o Koselugo trata

A neurofibromatose tipo 1 (NF1), também conhecida como doença de von Recklinghausen, é uma doença genética autossômica dominante causada por mutações no gene NF1 (cromossomo 17q11.2), que codifica a proteína neurofibromina.

A neurofibromina é um regulador negativo da via RAS-MAPK — mantém RAS inativa. Quando perdida ou disfuncional (perda de NF1 bialélica em células somáticas com NF1 germinativa mutada), a via RAS-MAPK fica constitutivamente ativada, dirigindo proliferação celular.

Manifestações clínicas da NF1:

Manchas café-com-leite (critério diagnóstico — ≥ 6 manchas > 5 mm em pré-púberes ou > 15 mm em pós-púberes).

Sardas axilares/inguinais (sinal de Crowe).

Neurofibromas cutâneos/dérmicos: pequenos nódulos disseminados no corpo, geralmente assintomáticos.

Neurofibromas plexiformes (NFP): tumores grandes infiltrativos, congênitos ou de aparecimento precoce, com risco de complicações graves (dor crônica, disfunção motora, deformidade, compressão de estruturas vitais — vias respiratórias, medula, vasos, vísceras).

Gliomas ópticos: tumores do nervo óptico/quiasma, mais comuns em crianças.

Tumores malignos da bainha de nervos periféricos (MPNST): 10% de risco vital — transformação maligna de NFP em sarcoma agressivo.

Outras: dificuldades cognitivas/de aprendizado, deformidades ósseas (pseudoartrose tibial), feocromocitoma, hipertensão arterial.

Os neurofibromas plexiformes são a indicação específica do Koselugo — tumores que progridem na infância e adolescência, frequentemente infiltrativos em estruturas vitais (face, pescoço, mediastino, pelve, membros), com cirurgia limitada ou impossível.

SPRINT: o estudo que transformou o cenário

O SPRINT Stratum 1 (2020): estudo Phase II em crianças e adolescentes (≥ 2 anos) com NF1 e neurofibroma plexiforme sintomático inoperável. 50 pacientes.

Selumetinibe 25 mg/m² 2×/dia por via oral. Avaliação por RM volumétrica + sintomas + qualidade de vida.

Resultados:

Resposta objetiva (redução ≥ 20% do volume tumoral): 66% dos pacientes — 33/50.

Redução de dor, melhora de função motora, melhora de qualidade de vida documentada.

Tempo até resposta: mediana 12 meses (lenta, mas sustentada).

Esses resultados em uma população pediátrica com doença até então sem tratamento foram base da aprovação acelerada FDA em 2020 e Anvisa em 2022. Em 2022-2023, estudos adicionais em adultos (KOMET, Phase III) confirmaram benefício em ≥ 18 anos.

Indicação aprovada em pediátricos ≥ 2 anos e adultos com NF1 e neurofibroma plexiforme sintomático e/ou inoperável. Critério importante: o NF não responde a cirurgia (não-ressecável ou ressecção causaria morbidade inaceitável).

Tratamento prático: dose por superfície corporal e monitoramento

Dose: 25 mg/m² de superfície corporal, 2×/dia, em jejum (1 hora antes ou 2 horas após refeição). Doses ajustadas conforme SC do paciente — em crianças pequenas pode ser 10-15 mg 2×/dia; em adolescentes/adultos, 40-50 mg 2×/dia.

Duração: continua enquanto houver benefício clínico e tolerabilidade. Em SPRINT, mediana de seguimento > 3 anos. Em pacientes responsivos, uso pode prolongar-se por muitos anos.

Monitoramento basal e periódico:

Ecocardiograma com fração de ejeção (FE): basal e a cada 3-6 meses — efeito de classe MEKi com queda potencial de FE.

Exame oftalmológico: basal e periódico — retinopatia central serosa (CSCR) é efeito específico dos MEKi.

Hemograma, função hepática, função renal, CPK: periódicos.

Crescimento e desenvolvimento em pediatria: monitorar curva de crescimento, ganho de peso, puberdade (Koselugo pode afetar metabolismo ósseo e crescimento).

RM volumétrica do NFP: a cada 6 meses para avaliação de resposta tumoral.

Toxicidade característica dos MEKi

O perfil de toxicidade do selumetinibe é similar aos outros MEKi (Mekinist, Cotellic, Mektovi):

Mais frequentes: rash maculopapular e acneiforme (frequentemente nas primeiras 8 semanas, manejável com hidratação e tetraciclinas orais), diarreia, náusea, vômito, fadiga, elevação de CPK (geralmente assintomática), elevação de transaminases, paroníquia.

Edema periorbital: efeito específico do selumetinibe.

Mais relevantes mas menos frequentes:

Cardiotoxicidade — queda de FE: 10-15% em algum grau, geralmente reversível com pausa. ICC sintomática rara.

Retinopatia central serosa (CSCR): 5-15% em algum grau. Distorção visual transitória, geralmente reversível.

Rabdomiólise rara: monitorar CPK em sintomas musculares severos.

Pneumonite intersticial: rara mas grave.

Em pediatria especificamente: alterações de crescimento, ganho de peso (frequente em uso prolongado), efeitos psicológicos, alterações endocrinológicas leves.

Acompanhamento multiprofissional (oncopediatra, endocrinologista pediátrico, cardiopediatra, oftalmopediatra) é parte essencial do cuidado em pacientes em uso prolongado.

Negativas frequentes e respostas

“Indicação rara, fora do Rol”: a indicação foi incorporada ao Rol em 2023-2024 para NF1 com NFP sintomático inoperável em pediátricos ≥ 2 anos.

Para adultos (≥ 18 anos), a indicação é mais recente e em algumas DUTs ainda em incorporação — a ADI 7.265 do STF (setembro 2025) respalda.

“Use cirurgia em vez”: cabível apenas em NFP ressecáveis. NÃO cabe em NFP inoperável (infiltrativo em estruturas vitais — vias respiratórias, vasos, medula, vísceras) ou com ressecção que causaria morbidade inaceitável. A indicação do Koselugo é precisamente para essa situação.

“Use quimio convencional”: INCORRETO — quimio convencional não tem eficácia em NFP. Antes do selumetinibe, não havia tratamento sistêmico eficaz.

“Tratamento experimental”: INCORRETO. Tem aprovação Anvisa, FDA, EMA com estudos de fase 2 e 3 positivos. Não é experimental.

“Cobertura indefinida não é razoável”: argumento questionável dado a natureza da doença (genética, progressiva, sem cura). A continuidade enquanto há benefício clínico é parte do padrão de cuidado.

Como agir na negativa do Koselugo

Primeiro: negativa por escrito, com fundamento técnico.

Segundo: relatório do oncopediatra/neurologista pediátrico (em adultos: oncologista ou neurologista especializado) com diagnóstico de NF1 confirmado (critérios NIH e/ou genético com mutação NF1).

Inclua descrição do NFP (localização, tamanho, sintomas) e avaliação de ressecabilidade cirúrgica — parecer de neurocirurgia/cirurgia pediátrica documentando inoperabilidade ou morbidade inaceitável.

Inclua RM volumétrica basal, escalas de dor e função, avaliação cardiológica e oftalmológica basal (para o monitoramento), suporte multiprofissional.

Em NFP com risco vital (compressão de vias aéreas, medular, vascular), em perda funcional progressiva, em dor severa intratável, em criança em crescimento com NFP em expansão, a tutela de urgência é caminho.

Veja o guia do que fazer quando o plano nega medicamento e os hubs paralelos: Mekinist (MEKi também usado em gliomas pediátricos BRAF+), Cotellic (MEKi alternativo).

O plano de saúde é obrigado a cobrir o Koselugo (selumetinibe)?
Sim, em NF1 (neurofibromatose tipo 1) com neurofibroma plexiforme sintomático e/ou inoperável em pacientes pediátricos ≥ 2 anos e adultos. A indicação pediátrica foi incorporada ao Rol da ANS em atualizações de 2023-2024 com Diretrizes de Utilização específicas. A indicação em adultos (≥ 18 anos), mais recente, está em processo de incorporação em algumas DUTs. Em situações marginais ou em adultos onde a DUT ainda não foi atualizada, a ADI 7.265 do STF (setembro de 2025) consolidou a obrigação de cobertura com prescrição fundamentada e ausência de alternativa equivalente.
O que é NF1 e por que é grave?
NF1 (neurofibromatose tipo 1) é uma doença genética autossômica dominante causada por mutações no gene NF1, que codifica a neurofibromina — reguladora negativa da via RAS-MAPK. Quando a neurofibromina é perdida, a via RAS-MAPK fica constitutivamente ativada, dirigindo proliferação celular em múltiplos tecidos. Manifestações: manchas café-com-leite, sardas axilares, neurofibromas cutâneos, neurofibromas plexiformes (NFP — tumores grandes infiltrativos que podem comprimir estruturas vitais), gliomas ópticos, risco de tumores malignos da bainha de nervos periféricos (MPNST — sarcoma agressivo, 10% de risco vital), deformidades ósseas, dificuldades cognitivas, hipertensão, feocromocitoma. Os NFP são a indicação específica do Koselugo — antes não havia tratamento sistêmico eficaz.
Como funciona o Koselugo no NF1?
O selumetinibe (Koselugo) é um inibidor de MEK — bloqueia a via RAS-MAPK que está constitutivamente ativada nas células de NF1 por perda da neurofibromina (reguladora negativa do RAS). Ao bloquear MEK (downstream do RAS), o crescimento das células do neurofibroma é interrompido. Resultado clínico no estudo SPRINT: 66% dos pacientes pediátricos com NF1 e neurofibroma plexiforme sintomático inoperável apresentaram resposta objetiva (redução ≥ 20% do volume tumoral) em 12 meses (mediana). Redução de dor, melhora de função motora, melhora de qualidade de vida. Em adultos (KOMET Phase III), confirmação do benefício. É o primeiro e atualmente único tratamento medicamentoso com eficácia comprovada em NFP de NF1.
Posso usar Koselugo em qualquer manifestação de NF1?
Não — a indicação aprovada é específica para neurofibroma plexiforme (NFP) sintomático e/ou inoperável. Outras manifestações da NF1 (manchas café-com-leite, neurofibromas cutâneos pequenos, gliomas ópticos isolados, deformidades ósseas, dificuldades cognitivas) NÃO são indicações do Koselugo. Em gliomas pediátricos BRAF+ (também associados à NF1 em alguns casos), o tratamento padrão é o combo trametinibe (Mekinist) + dabrafenibe (Tafinlar) ou MEKi monoterapia, conforme características moleculares. Em tumores malignos da bainha de nervos periféricos (MPNST — transformação maligna), o tratamento é cirurgia + radio/quimio convencional, não selumetinibe.
Por que precisa de ecocardiograma e exame oftalmológico?
Para monitorar efeitos adversos específicos da classe MEKi. Cardiotoxicidade: queda de fração de ejeção (FE) em 10-15% dos pacientes em algum grau, geralmente reversível com pausa. Monitoramento: ecocardiograma basal antes de iniciar e a cada 3-6 meses durante o tratamento. Em queda significativa de FE, pausa do selumetinibe e avaliação cardiológica. Retinopatia central serosa (CSCR): efeito específico dos MEKi em retina — acúmulo de fluido sub-retiniano causando distorção visual. Monitoramento: avaliação oftalmológica basal e periódica, com qualquer sintoma visual novo (visão borrada, manchas no campo visual). Em CSCR confirmada, pausa do selumetinibe — geralmente reversível em semanas-meses. Essas avaliações são parte essencial do cuidado em pediatria especialmente, com equipe multiprofissional (oncopediatra, cardiopediatra, oftalmopediatra).
Por quanto tempo dura o tratamento com Koselugo?
Continua enquanto houver benefício clínico e tolerabilidade — é tratamento indefinido em maioria dos pacientes. A NF1 é doença genética sem cura; os neurofibromas plexiformes tendem a re-crescer se o medicamento é suspenso. No estudo SPRINT, mediana de seguimento > 3 anos com benefício mantido em pacientes responsivos. Alguns pacientes têm uso prolongado por anos. A continuidade exige autorização periódica do plano e documentação de benefício mantido (RM volumétrica do NFP a cada 6 meses, avaliações de sintomas, função motora, qualidade de vida). Em casos de descontinuação por toxicidade ou progressão, alternativas terapêuticas são limitadas — daí a importância da defesa da continuidade enquanto o benefício é mantido.
Quanto custa o tratamento com Koselugo?
R$ 50 mil a R$ 90 mil por mês conforme dose (ajustada por superfície corporal — 25 mg/m² 2×/dia). Em crianças pequenas com SC menor, doses 10-15 mg 2×/dia; em adolescentes/adultos, 40-50 mg 2×/dia. Em uso indefinido (mediana > 3 anos em SPRINT, podendo prolongar-se por muitos anos em respondedores): R$ 1,8 a R$ 3 milhões em 3 anos; pode ultrapassar R$ 5-8 milhões em uso de longa duração. É um dos medicamentos pediátricos mais caros disponíveis, justificando a relevância da defesa específica da indicação em cada paciente. Comparativamente, doenças raras com indicações de longa duração frequentemente têm custos similares — Trikafta em FC, Spinraza em AME, e outros.

Mais informações

Se você passou por uma negativa de cobertura do Koselugo (selumetinibe) ou tem dúvidas sobre o caminho a seguir, pode entrar em contato com a Rosenbaum Advogados para que a sua situação seja analisada.

Este caso integra o panorama do Observatório Rosenbaum de Planos de Saúde, levantamento de mais de 43 mil decisões públicas do TJSP sobre planos de saúde.

Leo Rosenbaum

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