Votrient (Pazopanibe) pelo Plano de Saude: Cobertura e Direitos
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Votrient (Pazopanibe): cobertura em renal metastático e sarcomas de partes moles

Direito à Saúde, Remédio
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Publicado: janeiro 28, 2021 Atualizado: maio 15, 2026
Tempo estimado de leitura: 7 minutos

O Votrient® (princípio ativo pazopanibe) é um inibidor de tirosino-quinase (TKI) multi-alvo direcionado primariamente aos receptores de fatores de crescimento envolvidos em angiogênese e proliferação tumoral: VEGFR1, 2 e 3, PDGFR α e β, c-KIT, FGFR.

Suas indicações principais: carcinoma de células renais avançado/metastático em 1ª linha ou após citocinas (estudo VEG105192); sarcoma de partes moles avançado (não-lipossarcoma) após quimio convencional (PALETTE, 2012).

Pertence à mesma família de TKIs anti-angiogênicos que sunitinibe (Sutent), sorafenibe (Nexavar) e cabozantinibe (Cabometyx) — competem em câncer renal metastático.

Custo: R$ 12 mil a R$ 25 mil/mês (800 mg/dia em renal; 800 mg/dia em sarcoma). Tratamento crônico — anos em renal metastático em pacientes responsivos; até progressão em sarcoma.

Câncer renal metastático: o cenário moderno e o lugar do pazopanibe

O carcinoma de células renais (RCC) metastático sofreu transformação dramática nos últimos 15 anos:

Era citocinas (anos 1990 – 2007): interferon-α e interleucina-2 em altas doses como única opção sistêmica. Eficácia modesta e toxicidade severa.

Era TKIs anti-VEGFR (2007 – 2018): sunitinibe, pazopanibe, sorafenibe, axitinibe revolucionaram o tratamento — sobrevida em 1ª linha passou de ~12 meses para 24-30 meses.

O estudo COMPARZ (2013) comparou pazopanibe vs sunitinibe head-to-head: não-inferioridade demonstrada com perfil de toxicidade diferenciado (pazopanibe = menos fadiga e síndrome mão-pé, mais hepatotoxicidade).

Era imunoterapia + TKI (2018 – hoje): combos imuno-imuno (nivolumabe + ipilimumabe em risco IMDC intermediário/alto, CheckMate-214) ou imuno + TKI tornaram-se 1ª linha padrão em RCC metastático.

Esquemas principais: pembrolizumabe + axitinibe (KEYNOTE-426), nivolumabe + cabozantinibe (CheckMate-9ER), pembrolizumabe + lenvatinibe (CLEAR).

Pazopanibe em 2026: deslocado da 1ª linha em maioria dos pacientes, mas continua opção válida — não obsoleta.

Permanece em: contraindicação à imunoterapia (doença autoimune, transplante de órgãos), 2ª linha pós-imuno em alguns casos, e em pacientes mais idosos/frágeis onde combos modernos são muito tóxicos.

Sarcomas de partes moles: a indicação que mais defende cobertura

Em sarcomas de partes moles avançados não-lipossarcoma após quimio convencional (doxorrubicina ± ifosfamida), o pazopanibe é uma das únicas opções sistêmicas com aprovação formal — estudo PALETTE (2012).

PALETTE: 369 pacientes com sarcomas de partes moles avançados pós-quimio. Pazopanibe vs placebo. SLP 4,6 vs 1,6 meses (HR 0,31; redução de 69% no risco de progressão). Sem ganho significativo em sobrevida global, mas controle de doença em populações sem alternativa terapêutica.

Indicação: sarcomas avançados não-lipossarcoma — a exclusão é histórica (lipossarcomas não foram representados adequadamente no estudo). Histologias incluídas: leiomiossarcoma, sinovial, angiossarcoma, sarcoma pleomórfico indiferenciado, sarcoma alveolar, e outras.

Em sarcomas, as opções sistêmicas são limitadas — daí o lugar consagrado do pazopanibe em 2ª linha pós-quimio. Comparado: trabectedina (Yondelis) em lipossarcomas/leiomiossarcomas, eribulina em lipossarcomas, dacarbazina em algumas histologias.

A negativa em sarcoma frequentemente envolve “outras alternativas existem” — argumento questionável dado as poucas opções disponíveis nesse cenário e o respaldo do PALETTE.

Hepatotoxicidade: a assinatura tóxica do pazopanibe

A hepatotoxicidade é o efeito adverso mais característico do pazopanibe — distinto de outros TKIs anti-VEGFR. Mecanismo não totalmente esclarecido, mas relacionado a metabolismo hepático específico do composto.

Aumento de transaminases: 50-60% dos pacientes em algum grau, 5-10% grau ≥3.

Hepatite grave/falência hepática: rara mas potencialmente fatal — exige monitorização e suspensão precoce. Black box warning FDA.

Monitorização padrão: função hepática (AST, ALT, bilirrubina) antes de iniciar, depois semanal pelas primeiras 6-8 semanas, depois mensal por 4-6 meses, depois conforme estável.

Em ALT/AST > 3x LSN sem bilirrubina elevada: pausa, reavaliação, possível retomada em dose reduzida. ALT/AST > 3x LSN com bilirrubina > 2x LSN (lei de Hy): suspensão definitiva — sinal de hepatite imunomediada potencialmente fatal.

Outros efeitos hepáticos: hiperbilirrubinemia indireta em pacientes UGT1A1*28 (síndrome de Gilbert) — geralmente assintomática e não indica suspensão.

Jejum estrito: a peculiaridade de absorção

O pazopanibe tem absorção significativamente aumentada com alimentos gordurosos — efeito de food-effect substancial. Concentrações plasmáticas podem dobrar com alimento, levando a toxicidade.

Recomendação estrita: tomar em jejum — 1 hora antes de refeição OU 2 horas depois. Mesma orientação 24/24h, sem variar.

A não-aderência à recomendação de jejum é causa frequente de toxicidade inesperada (hepatotoxicidade, hipertensão piorada). Reforço da orientação é parte central do cuidado.

Comparado: nilotinibe (Tasigna em LMC) tem orientação similar de jejum estrito; sunitinibe pode ser tomado com ou sem alimentos. Cada TKI tem peculiaridades farmacocinéticas relevantes.

Outras toxicidades: o perfil multi-alvo

Mais frequentes: hipertensão arterial (40-50% — efeito de classe anti-VEGFR; manejável com IECA/BRA/CCB) e diarreia (50-60%, geralmente leve-moderada).

Também: fadiga, anorexia, náusea, alteração de paladar, despigmentação de cabelo (efeito específico, cabelo cresce branco em parte das pacientes) e aumento de transaminases.

Mais graves mas menos frequentes: hepatotoxicidade severa (descrita acima) e tromboembolismo arterial (efeito de classe — AVC, IAM em pacientes de alto risco).

Também: hemorragia, perfuração GI (rara), cardiotoxicidade (queda de FE), prolongamento QTc e síndrome mão-pé (geralmente menos intensa que com sunitinibe).

Cirurgia eletiva: suspender pelo menos 7 dias antes de cirurgia eletiva. Retomar após cicatrização completa (10-14 dias pós-op).

Interações medicamentosas: CYP3A4 (inibidores fortes/indutores), inibidores de bomba de prótons (reduzem absorção — separar 2 horas), simvastatina (aumento de exposição — preferir alternativas).

Negativas frequentes em renal e sarcoma

“Use combo imuno + TKI em renal”: cabível em pacientes elegíveis para imuno (sem contraindicações).

NÃO cabe em contraindicação documentada à imunoterapia (doença autoimune em descompensação, transplante de órgão sólido, imunodeficiência), pacientes que recusam imuno após aconselhamento, ou em 2ª-3ª linha pós-imuno.

“Use sunitinibe em vez de pazopanibe em renal”: head-to-head COMPARZ mostrou não-inferioridade entre os dois, com perfis de toxicidade diferenciados.

A escolha entre eles é clínica — pazopanibe pode ser preferido em pacientes com síndrome mão-pé severa anterior, perfil hepático bom, ou em conveniência da tomada única diária.

“Use outras alternativas em sarcoma”: questionável dado as limitadas opções em sarcomas.

Trabectedina é específica para lipossarcomas/leiomiossarcomas; eribulina para lipossarcomas; dacarbazina em situações específicas. O PALETTE é o estudo de fase 3 que firmou pazopanibe em sarcomas não-lipossarcomas pós-quimio.

“Indicação fora do Rol”: as principais indicações constam no Rol da ANS com DUT. Em situações marginais ou em indicações específicas (sarcomas mais raros, casos pós-imuno em renal), a ADI 7.265 do STF respalda.

Como agir na negativa do Votrient

Primeiro: negativa por escrito, com fundamento técnico.

Segundo: relatório oncológico — diagnóstico (RCC subtipo histológico ou sarcoma de partes moles com histologia específica), estadiamento, risco IMDC (em renal — favorable/intermediate/poor), linhas prévias (em renal: imuno se aplicável; em sarcoma: quimio convencional).

Inclua a justificativa pela escolha do pazopanibe especificamente — contraindicação a imuno em renal, perfil de toxicidade preferível, falha a outros TKIs, indicação histológica em sarcoma (não-lipossarcoma).

Em renal metastático em progressão, em sarcoma avançado sintomático pós-quimio, a tutela de urgência tem peso decisivo.

Veja o guia do que fazer quando o plano nega medicamento e os hubs paralelos: Sutent (sunitinibe — TKI alternativo), Nexavar (sorafenibe), Cabometyx (cabozantinibe), Lenvima (lenvatinibe).

O plano de saúde é obrigado a cobrir o Votrient (pazopanibe)?
Sim, nas indicações com respaldo clínico. As duas principais — carcinoma de células renais avançado/metastático (em 1ª linha ou após citocinas), e sarcoma de partes moles avançado não-lipossarcoma após quimio convencional (estudo PALETTE) — constam no Rol da ANS com Diretrizes de Utilização específicas. Em situações marginais (sarcomas histológicos raros, renal em 2ª/3ª linha pós-imuno em casos específicos), a ADI 7.265 do STF (setembro de 2025) consolidou a obrigação de cobertura com prescrição fundamentada e ausência de alternativa equivalente.
O pazopanibe ainda é usado em renal metastático em 2026?
Sim, mas em 2ª-3ª linha ou em populações específicas. O cenário de RCC metastático foi transformado pela imunoterapia: combos imuno-imuno (nivolumabe + ipilimumabe em risco IMDC intermediário/alto pelo CheckMate-214) e imuno + TKI (pembrolizumabe + axitinibe pelo KEYNOTE-426; nivolumabe + cabozantinibe pelo CheckMate-9ER; pembrolizumabe + lenvatinibe pelo CLEAR) tornaram-se 1ª linha padrão em maioria dos pacientes. Pazopanibe permanece como opção em: contraindicação à imunoterapia (doença autoimune, transplante de órgão sólido, imunodeficiência), pacientes idosos/frágeis onde combos modernos são muito tóxicos, ou em linhas posteriores após falha aos esquemas imuno.
Por que pazopanibe causa problema no fígado?
A hepatotoxicidade é o efeito adverso mais característico do pazopanibe — distinto de outros TKIs anti-VEGFR. Mecanismo não totalmente esclarecido, possivelmente relacionado a metabolismo hepático específico do composto e formação de metabólitos potencialmente tóxicos. Aumento de transaminases (AST/ALT) ocorre em 50-60% em algum grau, 5-10% em grau ≥3. Hepatite grave ou falência hepática é rara mas potencialmente fatal — black box warning FDA. Monitorização rigorosa é mandatória: função hepática antes de iniciar, semanal pelas primeiras 6-8 semanas, depois mensal por 4-6 meses, depois conforme estável. Suspensão precoce diante de elevação significativa evita progressão a hepatite grave.
Por que preciso tomar pazopanibe em jejum?
Porque a absorção do pazopanibe é significativamente aumentada com alimentos, particularmente gordurosos — efeito de “food-effect” substancial. Concentrações plasmáticas podem dobrar quando tomado com refeição, levando a toxicidade inesperada (hepatotoxicidade severa, hipertensão piorada, outros efeitos dose-dependentes). A recomendação estrita é tomar 1 hora antes de uma refeição OU 2 horas depois — em estômago vazio. A consistência diária (mesmo horário, mesmo intervalo das refeições) é importante. A não-aderência ao jejum é causa frequente de toxicidade inesperada em pacientes em uso. O reforço da orientação é parte central do cuidado.
O pazopanibe pode ser usado em qualquer sarcoma?
Não. A indicação aprovada em sarcoma é para sarcomas de partes moles avançados NÃO-LIPOSSARCOMA após quimio convencional (estudo PALETTE). Histologias incluídas: leiomiossarcoma, sinovial, angiossarcoma, sarcoma pleomórfico indiferenciado, sarcoma alveolar e outras. Lipossarcomas foram historicamente excluídos do PALETTE — para essa histologia, as opções são trabectedina (Yondelis) e eribulina. Em outros sarcomas específicos (GIST, dermatofibrossarcoma protuberans), há tratamentos direcionados específicos (imatinibe em GIST, imatinibe em DFSP com fusão COL1A1-PDGFB) — pazopanibe não é primeira escolha nessas situações.
Por que meu cabelo está ficando branco com Votrient?
Despigmentação capilar é um efeito adverso característico (mas reversível) do pazopanibe — 38-44% das pacientes em algum grau. Mecanismo: a inibição de c-KIT (uma das tirosino-quinases bloqueadas pelo pazopanibe) afeta melanócitos foliculares, que expressam c-KIT e dependem dessa sinalização para produção de melanina. Resultado: cabelo cresce despigmentado (branco/cinza) durante o tratamento. Geralmente reversível após suspensão — cabelo volta a crescer pigmentado em meses. Não há tratamento específico durante o uso; cosmético se desejado. Efeito similar é descrito com sunitinibe e outros TKIs com inibição de c-KIT.
Quanto custa o tratamento com Votrient?
R$ 12 mil a R$ 25 mil por mês (800 mg/dia em renal metastático ou em sarcoma; 30 cápsulas/mês). Em renal metastático com uso até progressão (mediana de uso 8-12 meses): R$ 100 mil a R$ 300 mil. Em sarcoma de partes moles (mediana de SLP do PALETTE 4,6 meses, mas alguns pacientes mantêm anos): R$ 50 mil a R$ 300 mil. Em uso prolongado em pacientes respondedores excepcionais (renal raros casos), pode ultrapassar R$ 600 mil em 2-3 anos. Genéricos brasileiros estão disponíveis. Comparativamente, no cenário moderno de RCC, combos imuno + TKI custam R$ 30-60 mil por mês — substancialmente mais que pazopanibe isolado.

Mais informações

Se você passou por uma negativa de cobertura do Votrient (pazopanibe) ou tem dúvidas sobre o caminho a seguir, pode entrar em contato com a Rosenbaum Advogados para que a sua situação seja analisada.

Leo Rosenbaum

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