O Camptosar® (princípio ativo irinotecano) é um inibidor da topoisomerase I — quimioterápico citotóxico que bloqueia a replicação do DNA das células tumorais. Faz parte da família dos camptotecinas, derivados naturais do Camptotheca acuminata (árvore chinesa).
Suas indicações principais: câncer colorretal metastático (CCR-m) em combos FOLFIRI ou FOLFOXIRI, e câncer de pâncreas avançado em combo FOLFIRINOX ou em formulação lipossomal (NALIRIFOX).
Também tem papel em câncer gástrico/esofágico avançado, câncer de pulmão de pequenas células e outros tumores em situações específicas.
É um dos quimioterápicos mais usados em oncologia gastrintestinal — pilar de regimes terapêuticos consagrados nos últimos 25 anos. Genéricos amplamente disponíveis (Tecnotecam, Evoltra-irinotecano, Erinodine, etc.).
Custo: R$ 800 a R$ 3.500 por infusão (dose ~150-180 mg/m² em FOLFIRI a cada 2 semanas; 180 mg/m² em FOLFIRINOX). Em tratamento por 6-12 meses (12-24 ciclos), total ~R$ 15-80 mil pelo irinotecano isoladamente; em combos completos, custo mais alto.
Negativa frequente em irinotecano lipossomal (Onivyde) — formulação distinta com indicação NAPOLI em pâncreas pós-gemcitabina, custo substancialmente maior.
Topoisomerase I e o mecanismo de “armadilha”
A topoisomerase I (Top1) é uma enzima crítica para a replicação do DNA. Durante a replicação, a dupla hélice precisa ser “desenrolada” e separada — a Top1 quebra temporariamente uma das fitas, permite o desenrolamento e religa em seguida.
O irinotecano é convertido em SN-38 (metabólito ativo, 100-1000x mais potente que o irinotecano original) por carboxilesterases hepáticas/intestinais.
O SN-38 atua estabilizando o complexo Top1-DNA em uma configuração de “quebra temporária” — impede a religadura. Quando a forquilha de replicação chega na quebra estabilizada, ocorre uma quebra dupla irreversível do DNA → apoptose da célula.
Por isso, o irinotecano é especialmente ativo em células com alta taxa de replicação — tumores em proliferação rápida.
O SN-38 é depois conjugado com ácido glucurônico pela enzima hepática UGT1A1 em SN-38G (forma inativa, eliminada). Esse passo é crítico — pacientes com baixa atividade de UGT1A1 acumulam SN-38 e têm toxicidade muito amplificada.
UGT1A1: o polimorfismo que define toxicidade severa
O gene UGT1A1 codifica a enzima que glucuroniza o SN-38. Variantes genéticas determinam a atividade enzimática:
UGT1A1*1 (alelo selvagem): atividade normal.
UGT1A1*28: variante mais comum, com 7 repetições TA (vs 6 do *1) no promotor — reduz expressão e atividade. Aproximadamente 10% da população é homozigota *28/*28 (síndrome de Gilbert, geralmente assintomática — leve hiperbilirrubinemia indireta).
UGT1A1*6, *27, *37: variantes menos comuns, com efeito similar.
Em pacientes homozigotos *28/*28 (ou heterozigotos compostos): a atividade de UGT1A1 é reduzida, o SN-38 acumula, e a toxicidade do irinotecano é amplificada drasticamente:
Diarreia grau 3-4: até 50% (vs ~15% em UGT1A1 normal).
Neutropenia grau 4: até 40%.
Risco de morte por toxicidade: significativamente aumentado.
A FDA recomenda testagem prévia de UGT1A1 em pacientes que vão receber irinotecano, especialmente em altas doses.
Em UGT1A1*28/*28: redução de dose inicial em 30-50%, com escalonamento se tolerado. A testagem custa ~R$ 150-400 e é coberta por muitos planos — parte do exame antes do tratamento em alguns centros.
CCR metastático: a indicação principal e os esquemas FOLFIRI/FOLFOXIRI
Em câncer colorretal metastático (CCR-m), o irinotecano é um dos pilares dos esquemas modernos:
FOLFIRI (irinotecano + 5-FU + leucovorina): esquema clássico em 1ª ou 2ª linha. Ciclos a cada 2 semanas. Pode ser combinado com biológicos (bevacizumabe/Avastin, cetuximabe, panitumumabe) conforme perfil molecular (KRAS, NRAS, BRAF) e localização do tumor primário.
FOLFOXIRI (irinotecano + oxaliplatina + 5-FU + leucovorina): combinação tripla, mais intensa, indicada em CCR-m com critérios de bom prognóstico funcional (ECOG 0-1, jovem, sem comorbidades).
Usado em necessidade de máxima atividade tumoral — potencial conversão a ressecabilidade de mets hepáticas, por exemplo. Toxicidade significativa, restrita a centros com experiência.
Irinotecano monoterapia: em pacientes intolerantes a 5-FU ou em 3ª linha após falha aos esquemas combinados.
Em CCR-m, o irinotecano permanece amplamente usado em 2026, frequentemente combinado com biológicos:
KRAS/NRAS/BRAF wild-type: combinar com anti-EGFR (cetuximabe/Erbitux ou panitumumabe).
KRAS/NRAS mutado: combinar com bevacizumabe (Avastin).
BRAF V600E mutado: protocolo BEACON com encorafenibe + cetuximabe; ou imunoterapia se MSI-H.
Pâncreas avançado: FOLFIRINOX e NALIRIFOX
Em câncer de pâncreas avançado, o irinotecano é parte de dois esquemas-chave:
FOLFIRINOX (5-FU + irinotecano + oxaliplatina + leucovorina): superior à gemcitabina isolada (PRODIGE 4/ACCORD 11, 2011) — sobrevida 11,1 vs 6,8 meses.
Toxicidade significativa (neutropenia febril, diarreia grave, neuropatia, fadiga) — restrito a pacientes ECOG 0-1 e sem contraindicações relevantes.
NALIRIFOX (irinotecano lipossomal/Onivyde + 5-FU + oxaliplatina + leucovorina): estudo NAPOLI-3 (2023) — sobrevida 11,1 vs 9,2 meses com gem-nab. Alternativa a FOLFIRINOX com perfil de toxicidade ligeiramente distinto.
Em pacientes mais frágeis (ECOG 1-2, idosos, com comorbidades) onde FOLFIRINOX seria muito tóxico: gem-nab (gemcitabina + nab-paclitaxel) é alternativa preferida.
Outros tumores e a formulação lipossomal
Pâncreas em segunda linha pós-gemcitabina: irinotecano lipossomal (Onivyde) em combo com 5-FU + leucovorina — indicação consagrada após estudo NAPOLI-1 (2015).
Câncer gástrico/esofágico avançado: irinotecano em combinações em 2ª linha após falha em platina + 5-FU.
Câncer de pulmão de pequenas células: combo cisplatina + irinotecano em algumas regiões (Japão) é alternativa ao esquema padrão cisplatina + etoposídeo.
Glioblastoma recidivado: combo bevacizumabe + irinotecano em algumas situações paliativas.
Câncer de colo uterino, ovário, cabeça e pescoço: indicações em situações específicas.
Toxicidade: a diarreia em dois tempos
A toxicidade do irinotecano é dominada pela diarreia, em dois mecanismos distintos:
Diarreia precoce (colinérgica): ocorre durante ou minutos após a infusão. Sintomas: diarreia aquosa, cólicas, sudorese, salivação, lacrimejamento, rinorreia.
Mecanismo: efeito inibitório direto do irinotecano sobre acetilcolinesterase, causando excesso colinérgico transitório. Manejo: atropina 0,25-1 mg SC resolve em minutos; profilaxia nos ciclos subsequentes se ocorreu.
Diarreia tardia: ocorre 24 horas a 11 dias após a infusão. Mecanismo: o SN-38 é re-excretado no intestino delgado distal pela bile, causando dano direto à mucosa intestinal.
Resultado: diarreia secretora + inflamação intestinal. Pode ser severa, levando a desidratação, sepse e óbito em casos não-manejados rapidamente.
Manejo da diarreia tardia: loperamida 4 mg ao primeiro episódio, depois 2 mg a cada 2 horas até 12 horas sem diarreia — dose mais alta que a habitual.
Hidratação abundante. Em diarreia persistente > 24h ou febre: antibiótico (ciprofloxacino), hospitalização, fluidos IV, octreotídeo em refratários. Suspensão do irinotecano e redução de dose no próximo ciclo.
Outras toxicidades: neutropenia (40-60% em algum grau, 15-25% grau ≥3, com risco de neutropenia febril), alopecia (60-70%) e náusea/vômito controlados com antieméticos modernos.
Também são descritos fadiga, mucosite leve, aumento de transaminases e doença pulmonar intersticial rara mas séria — especialmente em pacientes com DPOC prévio.

O plano de saúde negou a cobertura?
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Negativas frequentes e a defesa
“Use oxaliplatina (FOLFOX) em vez de FOLFIRI”: em CCR-m, FOLFOX e FOLFIRI são equivalentes em 1ª linha.
A escolha é por perfil de toxicidade (neuropatia da oxaliplatina vs diarreia do irinotecano), preferência institucional e biológico associado. A alternância em 2ª linha é estratégia consagrada.
“Use gemcitabina + nab-paclitaxel em pâncreas em vez de FOLFIRINOX”: cabível em pacientes ECOG 1-2 ou com contraindicações ao FOLFIRINOX.
NÃO cabe em ECOG 0-1 sem contraindicações onde FOLFIRINOX foi escolhido pelo oncologista — eficácia superior do FOLFIRINOX vs gem-nab em head-to-head indireto.
“Use irinotecano convencional em vez de Onivyde lipossomal”: cabível em algumas indicações onde ambos foram estudados. NÃO cabe em pâncreas em 2ª linha pós-gemcitabina onde o NAPOLI-1 mostrou benefício específico do irinotecano lipossomal.
“Indicação fora do Rol”: as principais indicações constam no Rol da ANS. Para indicações específicas, a ADI 7.265 do STF respalda fundamentação clínica.
“Use genérico em vez do Camptosar”: o irinotecano genérico é amplamente disponível e bioequivalente. A defesa pela marca Camptosar raramente tem fundamento.
Como agir na negativa
Primeiro: negativa por escrito, com fundamento técnico.
Segundo: relatório oncológico — diagnóstico (CCR-m, pâncreas, gástrico), estadiamento, perfil molecular (KRAS, NRAS, BRAF, MSI/MMR em CCR), performance status (ECOG) e tratamentos prévios.
Inclua a justificativa para irinotecano e esquema escolhido (FOLFIRI vs FOLFOXIRI vs FOLFIRINOX vs NALIRIFOX), e o resultado de UGT1A1 quando aplicável (especialmente em altas doses).
Em CCR-m em piora clínica, em pâncreas avançado recém-diagnosticado, em gástrico/esofágico em progressão sintomática, a tutela de urgência tem peso decisivo.
Veja o guia do que fazer quando o plano nega medicamento e os hubs paralelos: Avastin (parceiro do FOLFIRI em CCR-m), Abraxane (gem-nab em pâncreas), Taxotere.
Mais informações
Se você passou por uma negativa de cobertura do Camptosar (irinotecano) ou tem dúvidas sobre o caminho a seguir, pode entrar em contato com a Rosenbaum Advogados para que a sua situação seja analisada.
Este caso integra o panorama do Observatório Rosenbaum de Planos de Saúde, levantamento de mais de 43 mil decisões públicas do TJSP sobre planos de saúde.