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Camptosar (Irinotecano): cobertura em CCR, FOLFIRI/FOLFIRINOX, UGT1A1

Direito à Saúde, Remédio
Publicado: agosto 25, 2020 Atualizado: maio 14, 2026
Tempo estimado de leitura: 8 minutos

O Camptosar® (princípio ativo irinotecano) é um inibidor da topoisomerase I — quimioterápico citotóxico que bloqueia a replicação do DNA das células tumorais. Faz parte da família dos camptotecinas, derivados naturais do Camptotheca acuminata (árvore chinesa).

Suas indicações principais: câncer colorretal metastático (CCR-m) em combos FOLFIRI ou FOLFOXIRI, e câncer de pâncreas avançado em combo FOLFIRINOX ou em formulação lipossomal (NALIRIFOX).

Também tem papel em câncer gástrico/esofágico avançado, câncer de pulmão de pequenas células e outros tumores em situações específicas.

É um dos quimioterápicos mais usados em oncologia gastrintestinal — pilar de regimes terapêuticos consagrados nos últimos 25 anos. Genéricos amplamente disponíveis (Tecnotecam, Evoltra-irinotecano, Erinodine, etc.).

Custo: R$ 800 a R$ 3.500 por infusão (dose ~150-180 mg/m² em FOLFIRI a cada 2 semanas; 180 mg/m² em FOLFIRINOX). Em tratamento por 6-12 meses (12-24 ciclos), total ~R$ 15-80 mil pelo irinotecano isoladamente; em combos completos, custo mais alto.

Negativa frequente em irinotecano lipossomal (Onivyde) — formulação distinta com indicação NAPOLI em pâncreas pós-gemcitabina, custo substancialmente maior.

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Topoisomerase I e o mecanismo de “armadilha”

A topoisomerase I (Top1) é uma enzima crítica para a replicação do DNA. Durante a replicação, a dupla hélice precisa ser “desenrolada” e separada — a Top1 quebra temporariamente uma das fitas, permite o desenrolamento e religa em seguida.

O irinotecano é convertido em SN-38 (metabólito ativo, 100-1000x mais potente que o irinotecano original) por carboxilesterases hepáticas/intestinais.

O SN-38 atua estabilizando o complexo Top1-DNA em uma configuração de “quebra temporária” — impede a religadura. Quando a forquilha de replicação chega na quebra estabilizada, ocorre uma quebra dupla irreversível do DNA → apoptose da célula.

Por isso, o irinotecano é especialmente ativo em células com alta taxa de replicação — tumores em proliferação rápida.

O SN-38 é depois conjugado com ácido glucurônico pela enzima hepática UGT1A1 em SN-38G (forma inativa, eliminada). Esse passo é crítico — pacientes com baixa atividade de UGT1A1 acumulam SN-38 e têm toxicidade muito amplificada.

UGT1A1: o polimorfismo que define toxicidade severa

O gene UGT1A1 codifica a enzima que glucuroniza o SN-38. Variantes genéticas determinam a atividade enzimática:

UGT1A1*1 (alelo selvagem): atividade normal.

UGT1A1*28: variante mais comum, com 7 repetições TA (vs 6 do *1) no promotor — reduz expressão e atividade. Aproximadamente 10% da população é homozigota *28/*28 (síndrome de Gilbert, geralmente assintomática — leve hiperbilirrubinemia indireta).

UGT1A1*6, *27, *37: variantes menos comuns, com efeito similar.

Em pacientes homozigotos *28/*28 (ou heterozigotos compostos): a atividade de UGT1A1 é reduzida, o SN-38 acumula, e a toxicidade do irinotecano é amplificada drasticamente:

Diarreia grau 3-4: até 50% (vs ~15% em UGT1A1 normal).

Neutropenia grau 4: até 40%.

Risco de morte por toxicidade: significativamente aumentado.

A FDA recomenda testagem prévia de UGT1A1 em pacientes que vão receber irinotecano, especialmente em altas doses.

Em UGT1A1*28/*28: redução de dose inicial em 30-50%, com escalonamento se tolerado. A testagem custa ~R$ 150-400 e é coberta por muitos planos — parte do exame antes do tratamento em alguns centros.

CCR metastático: a indicação principal e os esquemas FOLFIRI/FOLFOXIRI

Em câncer colorretal metastático (CCR-m), o irinotecano é um dos pilares dos esquemas modernos:

FOLFIRI (irinotecano + 5-FU + leucovorina): esquema clássico em 1ª ou 2ª linha. Ciclos a cada 2 semanas. Pode ser combinado com biológicos (bevacizumabe/Avastin, cetuximabe, panitumumabe) conforme perfil molecular (KRAS, NRAS, BRAF) e localização do tumor primário.

FOLFOXIRI (irinotecano + oxaliplatina + 5-FU + leucovorina): combinação tripla, mais intensa, indicada em CCR-m com critérios de bom prognóstico funcional (ECOG 0-1, jovem, sem comorbidades).

Usado em necessidade de máxima atividade tumoral — potencial conversão a ressecabilidade de mets hepáticas, por exemplo. Toxicidade significativa, restrita a centros com experiência.

Irinotecano monoterapia: em pacientes intolerantes a 5-FU ou em 3ª linha após falha aos esquemas combinados.

Em CCR-m, o irinotecano permanece amplamente usado em 2026, frequentemente combinado com biológicos:

KRAS/NRAS/BRAF wild-type: combinar com anti-EGFR (cetuximabe/Erbitux ou panitumumabe).

KRAS/NRAS mutado: combinar com bevacizumabe (Avastin).

BRAF V600E mutado: protocolo BEACON com encorafenibe + cetuximabe; ou imunoterapia se MSI-H.

Pâncreas avançado: FOLFIRINOX e NALIRIFOX

Em câncer de pâncreas avançado, o irinotecano é parte de dois esquemas-chave:

FOLFIRINOX (5-FU + irinotecano + oxaliplatina + leucovorina): superior à gemcitabina isolada (PRODIGE 4/ACCORD 11, 2011) — sobrevida 11,1 vs 6,8 meses.

Toxicidade significativa (neutropenia febril, diarreia grave, neuropatia, fadiga) — restrito a pacientes ECOG 0-1 e sem contraindicações relevantes.

NALIRIFOX (irinotecano lipossomal/Onivyde + 5-FU + oxaliplatina + leucovorina): estudo NAPOLI-3 (2023) — sobrevida 11,1 vs 9,2 meses com gem-nab. Alternativa a FOLFIRINOX com perfil de toxicidade ligeiramente distinto.

Em pacientes mais frágeis (ECOG 1-2, idosos, com comorbidades) onde FOLFIRINOX seria muito tóxico: gem-nab (gemcitabina + nab-paclitaxel) é alternativa preferida.

Outros tumores e a formulação lipossomal

Pâncreas em segunda linha pós-gemcitabina: irinotecano lipossomal (Onivyde) em combo com 5-FU + leucovorina — indicação consagrada após estudo NAPOLI-1 (2015).

Câncer gástrico/esofágico avançado: irinotecano em combinações em 2ª linha após falha em platina + 5-FU.

Câncer de pulmão de pequenas células: combo cisplatina + irinotecano em algumas regiões (Japão) é alternativa ao esquema padrão cisplatina + etoposídeo.

Glioblastoma recidivado: combo bevacizumabe + irinotecano em algumas situações paliativas.

Câncer de colo uterino, ovário, cabeça e pescoço: indicações em situações específicas.

Toxicidade: a diarreia em dois tempos

A toxicidade do irinotecano é dominada pela diarreia, em dois mecanismos distintos:

Diarreia precoce (colinérgica): ocorre durante ou minutos após a infusão. Sintomas: diarreia aquosa, cólicas, sudorese, salivação, lacrimejamento, rinorreia.

Mecanismo: efeito inibitório direto do irinotecano sobre acetilcolinesterase, causando excesso colinérgico transitório. Manejo: atropina 0,25-1 mg SC resolve em minutos; profilaxia nos ciclos subsequentes se ocorreu.

Diarreia tardia: ocorre 24 horas a 11 dias após a infusão. Mecanismo: o SN-38 é re-excretado no intestino delgado distal pela bile, causando dano direto à mucosa intestinal.

Resultado: diarreia secretora + inflamação intestinal. Pode ser severa, levando a desidratação, sepse e óbito em casos não-manejados rapidamente.

Manejo da diarreia tardia: loperamida 4 mg ao primeiro episódio, depois 2 mg a cada 2 horas até 12 horas sem diarreia — dose mais alta que a habitual.

Hidratação abundante. Em diarreia persistente > 24h ou febre: antibiótico (ciprofloxacino), hospitalização, fluidos IV, octreotídeo em refratários. Suspensão do irinotecano e redução de dose no próximo ciclo.

Outras toxicidades: neutropenia (40-60% em algum grau, 15-25% grau ≥3, com risco de neutropenia febril), alopecia (60-70%) e náusea/vômito controlados com antieméticos modernos.

Também são descritos fadiga, mucosite leve, aumento de transaminases e doença pulmonar intersticial rara mas séria — especialmente em pacientes com DPOC prévio.

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Negativas frequentes e a defesa

“Use oxaliplatina (FOLFOX) em vez de FOLFIRI”: em CCR-m, FOLFOX e FOLFIRI são equivalentes em 1ª linha.

A escolha é por perfil de toxicidade (neuropatia da oxaliplatina vs diarreia do irinotecano), preferência institucional e biológico associado. A alternância em 2ª linha é estratégia consagrada.

“Use gemcitabina + nab-paclitaxel em pâncreas em vez de FOLFIRINOX”: cabível em pacientes ECOG 1-2 ou com contraindicações ao FOLFIRINOX.

NÃO cabe em ECOG 0-1 sem contraindicações onde FOLFIRINOX foi escolhido pelo oncologista — eficácia superior do FOLFIRINOX vs gem-nab em head-to-head indireto.

“Use irinotecano convencional em vez de Onivyde lipossomal”: cabível em algumas indicações onde ambos foram estudados. NÃO cabe em pâncreas em 2ª linha pós-gemcitabina onde o NAPOLI-1 mostrou benefício específico do irinotecano lipossomal.

“Indicação fora do Rol”: as principais indicações constam no Rol da ANS. Para indicações específicas, a ADI 7.265 do STF respalda fundamentação clínica.

“Use genérico em vez do Camptosar”: o irinotecano genérico é amplamente disponível e bioequivalente. A defesa pela marca Camptosar raramente tem fundamento.

Como agir na negativa

Primeiro: negativa por escrito, com fundamento técnico.

Segundo: relatório oncológico — diagnóstico (CCR-m, pâncreas, gástrico), estadiamento, perfil molecular (KRAS, NRAS, BRAF, MSI/MMR em CCR), performance status (ECOG) e tratamentos prévios.

Inclua a justificativa para irinotecano e esquema escolhido (FOLFIRI vs FOLFOXIRI vs FOLFIRINOX vs NALIRIFOX), e o resultado de UGT1A1 quando aplicável (especialmente em altas doses).

Em CCR-m em piora clínica, em pâncreas avançado recém-diagnosticado, em gástrico/esofágico em progressão sintomática, a tutela de urgência tem peso decisivo.

Veja o guia do que fazer quando o plano nega medicamento e os hubs paralelos: Avastin (parceiro do FOLFIRI em CCR-m), Abraxane (gem-nab em pâncreas), Taxotere.

O plano de saúde é obrigado a cobrir o Camptosar (irinotecano)?
Sim, nas indicações com respaldo clínico. As principais — câncer colorretal metastático em combos FOLFIRI/FOLFOXIRI, câncer de pâncreas avançado em combo FOLFIRINOX, câncer gástrico/esofágico em 2ª linha, irinotecano lipossomal (Onivyde) em pâncreas 2ª linha pós-gemcitabina (NAPOLI-1) — constam no Rol da ANS com Diretrizes de Utilização. Em situações específicas (outros tumores, formulações específicas), a ADI 7.265 do STF (setembro de 2025) consolidou a obrigação de cobertura com prescrição fundamentada e ausência de alternativa equivalente.
O que é UGT1A1 e por que é importante?
UGT1A1 é uma enzima hepática que glucuroniza (inativa) o SN-38 — o metabólito ativo do irinotecano. Pacientes com polimorfismo UGT1A1*28 (homozigotos *28/*28, ~10% da população, frequentemente com síndrome de Gilbert) têm atividade reduzida da enzima, acumulam SN-38 e têm toxicidade amplificada drasticamente: diarreia grau 3-4 em até 50% (vs ~15% normal), neutropenia grau 4 em até 40%, risco de morte por toxicidade significativamente aumentado. A FDA recomenda testagem prévia em pacientes que vão receber irinotecano em altas doses (irinotecano > 180 mg/m²). Em UGT1A1*28/*28: redução de dose inicial em 30-50%, com escalonamento se tolerado. A testagem custa ~R$ 150-400 e é coberta pelos planos em diversas situações.
O que é a diarreia colinérgica do irinotecano?
É a diarreia PRECOCE que ocorre durante ou minutos após a infusão de irinotecano. Sintomas: diarreia aquosa, cólicas, sudorese, salivação excessiva, lacrimejamento, rinorreia — quadro colinérgico clássico. Mecanismo: o irinotecano tem efeito inibitório direto sobre acetilcolinesterase, causando excesso colinérgico transitório. Manejo: atropina 0,25-1 mg subcutânea imediatamente — resolve em minutos. Em pacientes que apresentaram diarreia colinérgica em um ciclo, pré-medicação profilática com atropina antes da próxima infusão é recomendada. NÃO confundir com a diarreia TARDIA (24h-11 dias após), que tem mecanismo distinto (dano mucosa pelo SN-38 re-excretado) e manejo diferente (loperamida em dose alta + hidratação + antibiótico se febre).
Qual a diferença entre FOLFIRI e FOLFIRINOX?
FOLFIRI: 5-FU + leucovorina + irinotecano. Esquema clássico em câncer colorretal metastático em 1ª ou 2ª linha. Toxicidade significativa mas manejável. Pode ser combinado com biológicos (bevacizumabe ou anti-EGFR conforme KRAS/NRAS). FOLFIRINOX: 5-FU + leucovorina + irinotecano + oxaliplatina — combinação tripla muito mais intensa. Indicada principalmente em câncer de pâncreas avançado (estudo PRODIGE 4) ou em CCR-m com critérios de bom prognóstico funcional para conversão a ressecabilidade. Toxicidade severa (neutropenia febril, diarreia grave, neuropatia da oxaliplatina, fadiga) — restrita a pacientes ECOG 0-1 sem comorbidades, em centros com experiência.
Por que preciso de atropina antes ou durante o irinotecano?
Profilaxia ou tratamento da diarreia colinérgica precoce. O irinotecano causa em alguns pacientes uma síndrome colinérgica aguda durante ou minutos após a infusão — diarreia aquosa, cólicas, salivação, sudorese, lacrimejamento, rinorreia. Mecanismo: inibição da acetilcolinesterase pelo irinotecano. Manejo: atropina 0,25-1 mg subcutânea ou IV — resolve em minutos. Em pacientes que apresentaram síndrome colinérgica em um ciclo anterior, pré-medicação profilática com atropina antes da próxima infusão é prática consagrada. Cuidado em pacientes com glaucoma de ângulo fechado, retenção urinária, taquicardia significativa (contraindicações relativas à atropina).
Quanto custa o tratamento com Camptosar?
Por infusão (150-180 mg/m²): R$ 800 a R$ 3.500. Em FOLFIRI a cada 2 semanas por 6-12 meses (12-24 ciclos): irinotecano isoladamente R$ 15 mil a R$ 80 mil. Em FOLFIRINOX em pâncreas (12-24 ciclos): irinotecano R$ 20 mil a R$ 70 mil. Em combos completos com biológicos (bevacizumabe, cetuximabe), o custo total do regimen ultrapassa R$ 200 mil em tratamento prolongado. Genéricos brasileiros (Tecnotecam, Evoltra-irinotecano, Erinodine) estão disponíveis e custam significativamente menos que a marca. O irinotecano lipossomal (Onivyde) tem custo substancialmente maior — R$ 8 mil a R$ 15 mil por infusão.
Posso usar irinotecano se tenho síndrome de Gilbert?
Pode, com cuidados. A síndrome de Gilbert é causada por variantes do gene UGT1A1 (incluindo a UGT1A1*28) — pacientes com Gilbert costumam ser homozigotos *28/*28 ou heterozigotos compostos. A atividade reduzida de UGT1A1 amplifica a toxicidade do irinotecano: diarreia grau 3-4 em até 50%, neutropenia grau 4 em até 40%. Em pacientes com Gilbert documentado (clínica + bilirrubina indireta elevada isolada, sem hemólise) que vão receber irinotecano, a recomendação é: testagem confirmatória de UGT1A1 (genotipagem), e em *28/*28 confirmado, redução de dose inicial em 30-50%, com escalonamento se tolerado. Em alguns centros, evita-se o irinotecano em UGT1A1*28/*28 quando alternativas terapêuticas equivalentes estão disponíveis (FOLFOX em vez de FOLFIRI em CCR-m, por exemplo).

Mais informações

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Leo Rosenbaum

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