
O distrato imobiliário é o desfazimento do contrato de compra e venda de imóvel — seja na planta, em construção ou em obras. A Lei 13.786/2018 (chamada “Lei do Distrato”) trouxe regras claras sobre quem paga o quê quando o negócio é desfeito, mas a aplicação prática depende do motivo do distrato: arrependimento do comprador, atraso da construtora ou outros vícios contratuais.
Este guia explica os cenários, prazos, percentuais de retenção, jurisprudência consolidada do STJ e quando vale acionar a Justiça. Se você comprou imóvel na planta e quer (ou precisa) desfazer o negócio, aqui está o roteiro completo.
O que é distrato imobiliário
Distrato é o ato jurídico que desfaz um contrato. No mercado imobiliário, é usado principalmente em três situações:
- Arrependimento do comprador — desistência sem culpa específica da construtora (mudança de planos, perda de emprego, divórcio)
- Culpa da construtora — atraso na entrega superior a 180 dias, vícios construtivos graves, descumprimento de cláusulas essenciais
- Acordo bilateral — partes concordam em desfazer por motivos diversos (renegociação, troca por outro imóvel)
Cada cenário tem regras próprias de devolução, retenção e prazo — e é aí que a Lei 13.786 entrou pra organizar.
Lei do Distrato (Lei 13.786/2018): o que ela mudou
Antes de 2018 a jurisprudência variava muito: alguns tribunais permitiam retenção de 10%, outros de 30%, e a forma de devolução (parcelada ou à vista) era controversa. A Lei 13.786/2018 trouxe parâmetros objetivos:
- Retenção máxima: 25% do valor pago em caso de distrato por arrependimento do comprador (50% se a incorporação tiver patrimônio de afetação — art. 67-A, §5º)
- Prazo de tolerância: 180 dias além da data prevista no contrato (art. 43-A) sem configurar mora da construtora
- Multa por atraso: 1% do valor já pago por mês de atraso, após decorrida a tolerância (art. 43-A, §3º)
- Devolução: em parcela única quando houver culpa da construtora; parcelada em até 180 dias após habite-se quando for por desistência do comprador
Para contratos firmados ANTES de dezembro de 2018, prevalece a jurisprudência anterior (geralmente Súmula 543 do STJ + decisões dos tribunais estaduais). Para contratos POSTERIORES, aplica-se diretamente a Lei 13.786.
Quando o distrato pode ser pedido — cenários
1. Arrependimento puro do comprador
Quando o comprador desiste sem que a construtora tenha descumprido nada: arrependimento, mudança de planos, dificuldade financeira. Nesse caso o art. 67-A permite o distrato mas autoriza a construtora a reter até 25% do valor pago (50% se houver patrimônio de afetação). É o pior cenário pro comprador, mas ainda recuperável: na maioria das ações, o juiz aplica o percentual menor (25%) se houver indícios de pressão comercial ou falha de informação no momento da venda.
2. Atraso superior a 180 dias
A construtora previu entrega em janeiro/2024 com tolerância de 180 dias (julho/2024). Se em agosto/2024 a obra ainda não tem habite-se, configura mora da construtora. O comprador pode optar por:
- Manter o contrato e exigir multa de 1% ao mês sobre o valor pago + lucros cessantes (aluguel que poderia receber) + correção INCC
- Pedir distrato com devolução integral — sem retenção, em parcela única, com correção monetária e juros
3. Vícios construtivos graves
Mesmo com habite-se, vícios estruturais ou aparentes graves (infiltração, fissuras, problemas de fundação, área diferente da contratada) permitem rescisão. Aqui o caminho é avaliação técnica + ação redibitória ou rescisão com devolução proporcional.
Tabela de retenção por cenário
| Cenário | Retenção máxima | Devolução | Base legal |
|---|---|---|---|
| Arrependimento do comprador (sem patrimônio de afetação) | 25% do pago | Parcelada em até 180 dias após habite-se | Lei 13.786 art. 67-A |
| Arrependimento do comprador (com patrimônio de afetação) | 50% do pago | Parcelada em até 180 dias após habite-se | Lei 13.786 art. 67-A §5º |
| Atraso da construtora > 180 dias | 0% (devolução integral) | Imediata, em parcela única | Lei 13.786 art. 43-A + STJ Súmula 543 |
| Vícios construtivos graves | Variável (depende avaliação técnica) | Imediata se houver inviabilidade | CC art. 441 + CDC art. 18 |
| Falsidade na propaganda / publicidade enganosa | 0% (devolução integral + indenização) | Imediata | CDC arts. 30, 35 e 37 |
Importante: muitos contratos contêm cláusulas que preveem retenção de 30%, 40% ou até 50% mesmo em arrependimento simples. Essas cláusulas são frequentemente anuladas judicialmente quando excedem o limite legal da Lei 13.786, conforme jurisprudência consolidada do STJ.

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Calculadora do distrato: estime quanto você recebe de volta
Informe o que você já pagou e a sua situação para ver uma estimativa com base na Lei do Distrato. O resultado é meramente informativo: o cálculo real depende do contrato (comissão de corretagem, taxa de fruição se houve uso do imóvel, encargos e correção monetária).
Distrato amigável vs judicial
O distrato amigável é negociado diretamente com a construtora ou via mediação. É mais rápido (30-90 dias), mais barato e menos desgastante. Funciona melhor quando:
- A construtora reconhece a culpa (atraso, vício)
- O comprador está disposto a aceitar parcelamento
- Há margem para negociar percentual de retenção
O distrato judicial é necessário quando:
- A construtora se nega a devolver ou propõe valores irrisórios
- O contrato tem cláusulas abusivas que precisam ser anuladas
- Há disputa sobre o motivo (comprador alega atraso, construtora alega arrependimento)
- O comprador foi negativado e precisa de tutela de urgência
Em ambos os casos, é estratégico ter orientação jurídica especializada desde o início — a notificação formal feita por advogado costuma trazer a construtora à mesa antes do processo.
O que a Justiça tem decidido em casos de distrato
Decisões judiciais recentes em ações de distrato e rescisão por atraso de obra ilustram como os tribunais vêm aplicando essas regras:
- Justiça Federal garante devolução integral por mora absoluta em imóvel na planta — atraso prolongado configurou mora absoluta, devolução integral imediata sem qualquer retenção.
- Justiça garante devolução de valores em caso de atraso na entrega de imóvel — Lei 13.786 aplicada para devolução integral + multa de atraso.
- TJSP reconhece atraso de 14 meses e majora multa imobiliária — multa contratual majorada por tribunal por descumprimento prolongado.
- Multa por atraso em loteamento: TJSP condena incorporadora — regra do art. 43-A aplicada a loteamento (não só edifício vertical).
Cada caso começa com análise dos documentos. Veja o guia específico de distrato por atraso na entrega e o cálculo da multa por atraso.
Passo a passo para pedir o distrato
- Reúna documentação — contrato, todos comprovantes de pagamento, correspondências (e-mails, WhatsApp) com a construtora, eventual notificação de atraso
- Calcule o cenário — qual a situação (arrependimento puro? atraso da construtora? vício?). Cenário define o teto de retenção e a forma de devolução
- Notifique formalmente a construtora (preferencialmente por advogado) demonstrando os fundamentos jurídicos. Em 30 dias muitas construtoras propõem acordo
- Tente acordo com mediação ou via JEC se valor permitir
- Ajuíze a ação com pedido de tutela de urgência se houver cobrança continuando, negativação ou risco financeiro imediato
- Acompanhe a execução — após sentença favorável, valores são liberados via depósito judicial ou cumprimento de sentença
Quando NÃO faz sentido pedir distrato
Antes de pedir distrato vale considerar:
- Imóvel já valorizou muito — em mercados em alta, manter o contrato e revender depois pode ser financeiramente melhor que distrato com retenção
- Construtora dá garantias firmes de entrega em curto prazo — atraso de 60-90 dias raramente justifica distrato, só multa
- Comprador deu pouco de entrada — se pagou só 5-10% do valor, retenção de 25% sobre esse valor pequeno pode não compensar custos de processo
- Renegociação foi oferecida — alguns acordos de prorrogação de prazo + desconto compensatório são vantajosos
A análise individualizada do contrato e do momento do mercado é o que define o melhor caminho.
Perguntas frequentes sobre distrato imobiliário
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Este conteúdo integra o panorama do Observatório Rosenbaum de Direito Imobiliário, levantamento de 1.173 decisões públicas do TJSP sobre atraso de obra, distrato e vícios de construção.