
O Tribunal de Justiça de São Paulo manteve, por unanimidade, a condenação da CloudWalk — instituição de pagamento dona da maquininha e da conta digital InfinitePay — por bloqueio de conta sem justificativa plausível (Apelação nº 1014617-92.2024.8.26.0361, comarca de Mogi das Cruzes, relator Francisco Giaquinto).
O acórdão aplicou o CDC, reconheceu a retenção indevida de valores como má prestação do serviço e classificou o dano moral como presumido — damnum in re ipsa —, ou seja, decorrente do próprio fato do bloqueio ilícito.
Conta InfinitePay bloqueada com saldo retido? A empresa pode fazer análise de risco, mas deve apresentar justificativa concreta e liberar os valores em prazo razoável. Sem isso, a retenção é tratada pela Justiça como abusiva: o lojista pode exigir resposta formal, a liberação do saldo — inclusive por liminar — e indenização quando houver prejuízo.
Por que a InfinitePay bloqueia contas e retém repasses
A InfinitePay atende sobretudo autônomos e pequenos lojistas, que recebem vendas no cartão e no Pix. Os bloqueios costumam nascer de análises antifraude automatizadas: pico de vendas fora do padrão, contestações de compradores (chargeback), divergência cadastral ou contestação de Pix pelo MED do Banco Central.
Para quem vive do negócio, o efeito é imediato: o capital de giro para. E é justamente a essencialidade desses valores que faz a Justiça exigir da empresa uma justificativa concreta — não basta invocar genericamente a política interna de segurança.
Quando o bloqueio é abusivo — e quando pode se sustentar
O bloqueio tende a se sustentar quando existe indício documentado de fraude, ordem judicial ou irregularidade cadastral não sanada após solicitação formal. Nesses cenários, a retenção temporária é vista como exercício regular da atividade.
Ele tende a cair quando a empresa não explica o motivo, não indica prazo nem procedimento para regularização e mantém o dinheiro das vendas retido indefinidamente. Foi essa a moldura do acórdão de Mogi das Cruzes: bloqueio sem justificativa plausível, aplicação da teoria do risco do negócio e condenação mantida em segunda instância.
Levantamento de decisões públicas do TJSP — não representa casos do escritório. Cada caso é único e não é promessa de resultado. Veja o Observatório de Plataformas Digitais.

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Direitos do lojista: CDC, Súmula 479 e o risco do negócio
Mesmo sendo usada para atividade profissional, a conta do pequeno empreendedor costuma receber a proteção do CDC quando ele é o destinatário final do serviço financeiro — enquadramento que o próprio acórdão citado adotou (arts. 2º, 3º e 14 do CDC).
Somam-se a Súmula 479 do STJ, que responsabiliza as instituições por falhas e fraudes de suas operações, e a teoria do risco do negócio: quem lucra com o serviço de pagamento responde pelos danos que o sistema de bloqueio automatizado causa a clientes de boa-fé. O ônus de provar a regularidade da retenção é da empresa.
Chargeback, MED e a zona cinzenta do lojista
Vale separar as figuras. O chargeback é a contestação da compra no cartão: o comprador nega a transação e a bandeira estorna. O MED é o mecanismo do Banco Central para contestação de Pix, usado em fraudes. Nos dois casos, a instituição de pagamento faz uma apuração — e é aí que mora a zona cinzenta.
A apuração legítima analisa a transação contestada, pede documentos ao lojista e conclui em prazo razoável. A prática abusiva usa a contestação de uma venda para travar todo o saldo da conta, sem ouvir o vendedor e sem prazo de resposta. A diferença entre uma e outra é exatamente o que os juízes examinam.
Para o lojista de boa-fé, a melhor defesa é a organização documental: nota ou recibo de cada venda, comprovante de entrega, conversas com o comprador. Quem consegue reconstituir a operação contestada em minutos tem posição muito mais forte, no atendimento e no processo.
Como agir se a InfinitePay bloqueou a sua conta
- Reúna os comprovantes das vendas retidas: relatórios do app, notas, conversas com clientes e a data do bloqueio.
- Solicite a justificativa por escrito e guarde os protocolos — respostas genéricas também são prova.
- Registre reclamação no consumidor.gov.br e no canal do Banco Central, anexando os documentos.
- Persistindo a retenção, procure orientação jurídica com os comprovantes de origem dos valores para avaliar o pedido de liminar.
A liminar para liberar o saldo das vendas
Como o dinheiro retido costuma ser o caixa do negócio, o pedido de tutela de urgência (art. 300 do CPC) é frequente nesses casos. Demonstrando a origem lícita das vendas e a ausência de justificativa da empresa, é possível obter a liberação antes da sentença, muitas vezes com multa diária em caso de descumprimento.
Quando NÃO vale a pena entrar com ação
Se houver chargebacks legítimos em volume relevante, indício real de fraude nas transações ou impossibilidade de documentar as vendas, o processo tende a não prosperar. Bloqueios curtos, já resolvidos e sem prejuízo demonstrável também raramente justificam o custo de litigar.
O cenário completo — de bancos digitais a aplicativos — está no guia de conta bloqueada em plataforma digital. Para maquininhas e contas do mesmo segmento, vale comparar com o caso do PagBank.
Perguntas frequentes
Antes de decidir, você pode revisar os documentos do seu caso com um advogado de direito do consumidor.
Léo Rosenbaum — advogado, OAB/SP 176.029. Conteúdo informativo a partir de decisões públicas e da legislação vigente; não substitui a análise individual do seu caso.
Tirar minha dúvida no WhatsAppEste conteúdo integra o panorama do Observatório Rosenbaum de Negativação e Cobrança Indevida, levantamento de 3.812 decisões públicas do TJSP sobre negativação e cobrança indevida.