
O Tagrisso® (princípio ativo osimertinibe) é um inibidor de tirosino-quinase EGFR de terceira geração usado no câncer de pulmão de células não pequenas (NSCLC) com mutação ativadora do EGFR.
O Tagrisso se enquadra na categoria de medicamentos de alto custo — drogas de alta complexidade terapêutica frequentemente negadas pelas operadoras de plano de saúde. Para entender a base jurídica geral e o passo a passo da ação judicial, veja: medicamento de alto custo pelo plano de saúde.
É o medicamento que reescreveu o algoritmo de tratamento do NSCLC EGFR+ em duas frentes: na primeira linha (estudo FLAURA, 2018) deslocou erlotinibe e gefitinibe, e no adjuvante pós-cirúrgico (estudo ADAURA, 2020) virou padrão em estágios IB-IIIA com mutação EGFR.
Preço: R$ 30 mil a R$ 45 mil/mês (80 mg/dia, 30 comprimidos). Em tratamento adjuvante de 3 anos, custo total entre R$ 1 milhão e R$ 1,6 milhão.
Negativa frequente: pedido em adjuvante (ADAURA é mais recente, algumas operadoras resistem), uso em situações off-label (mutações EGFR atípicas, combinações), substituição imposta por erlotinibe/gefitinibe (TKIs 1ª gen).
EGFR e as três gerações de TKI
O receptor de fator de crescimento epidérmico (EGFR) está mutado em ~15-20% dos NSCLC adenocarcinomas em populações ocidentais e ~40-50% em asiáticas. As mutações mais comuns: deleção do exon 19 (50% dos casos) e L858R do exon 21 (40%).
1ª geração (erlotinibe — Tarceva, gefitinibe — Iressa): TKIs reversíveis. Foram o primeiro avanço em NSCLC EGFR+ no início dos anos 2000. Sobrevida média de 9-13 meses em 1ª linha — vantagem clara sobre quimio.
2ª geração (afatinibe — Giotrif, dacomitinibe — Vizimpro): TKIs irreversíveis pan-HER. Atividade levemente superior em mutações específicas (deleção exon 19), maior toxicidade (diarreia, rash mais intensos).
3ª geração (osimertinibe — Tagrisso): TKI irreversível seletivo para EGFR mutado, inicialmente desenvolvido para a mutação de resistência T790M que emerge após 9-12 meses dos TKIs 1ª/2ª gen. Depois mostrou superioridade em 1ª linha (FLAURA), e domina o cenário hoje.
FLAURA: o estudo que virou o jogo em 1ª linha
Até 2018, primeira linha em NSCLC EGFR+ era erlotinibe ou gefitinibe; o osimertinibe ficava para a 2ª linha em pacientes com T790M+ documentado por nova biópsia.
O FLAURA (n=556, 2018) comparou osimertinibe vs erlotinibe/gefitinibe em primeira linha. Resultados:
Sobrevida livre de progressão: 18,9 meses com osimertinibe vs 10,2 meses com TKIs 1ª gen (redução de 54% no risco de progressão).
Sobrevida global: 38,6 meses com osimertinibe vs 31,8 com TKIs 1ª gen — primeira demonstração de ganho em sobrevida em estudo de primeira linha em NSCLC EGFR+.
Penetração CNS: redução de 52% no risco de progressão em SNC. O osimertinibe atravessa a barreira hematoencefálica em concentração suficiente para tratar e prevenir metástases cerebrais — vantagem capital nessa população.
ADAURA: o adjuvante que reduz recorrência
O ADAURA (n=682, 2020) testou osimertinibe vs placebo após ressecção cirúrgica completa em pacientes com NSCLC EGFR+ estádios IB-IIIA, com ou sem quimio adjuvante prévia.
Sobrevida livre de doença em 2 anos: 89% com osimertinibe vs 53% com placebo em estágios II-IIIA (redução de 83% no risco de recorrência).
Sobrevida global (atualização 2023): redução de 51% no risco de morte. Dado raro em estudos adjuvantes — a maioria mostra apenas redução de recorrência.
O esquema é osimertinibe 80 mg/dia por 3 anos. Custo total ~R$ 1,2-1,6 milhão. Os planos resistem mais a essa indicação que à metastática, alegando “fora do Rol” ou “quimio adjuvante padrão é suficiente”.
T790M, C797S e o ciclo de resistências
Quase todos os pacientes em uso de osimertinibe acabam progredindo após 18-24 meses. Os mecanismos de resistência são heterogêneos — distinto da era 1ª/2ª gen onde T790M dominava.
C797S: nova mutação no exon 20 que impede a ligação covalente do osimertinibe. Em torno de 15-20% das progressões.
Amplificação de MET ou HER2: ativação de vias paralelas. Combinações com inibidores de MET (capmatinibe — Tabrecta) ou anti-HER2 (trastuzumabe deruxtecan) estão em estudo.
Transformação para pequenas células (SCLC): rara mas dramática — o tumor muda histologia, exigindo regime de pequenas células (etoposídeo + carboplatina).
Em progressão, a estratégia depende do mecanismo (rebiópsia tecidual ou líquida orienta) — quimio combinada, combinações de TKIs, terapia direcionada à via alternativa, ou imunoterapia em casos selecionados.
Mutações EGFR atípicas e o off-label
Além de deleção do exon 19 e L858R, existem mutações atípicas: G719X, L861Q, S768I, inserções no exon 20.
G719X, L861Q, S768I: respondem ao osimertinibe (e ao afatinibe), embora com taxas mais baixas que em deleção 19 ou L858R. Aprovação varia por país.
Inserções no exon 20: classicamente resistentes aos TKIs convencionais. Tratamentos específicos: amivantamabe (Rybrevant), mobocertinibe — alternativas direcionadas. Osimertinibe nessas mutações é debatido.
Esse cenário gera negativas em pedidos com mutações atípicas — argumento da operadora: “não consta no Rol/DUT para essa mutação”.
A defesa exige fundamentação clínica específica do oncologista, com sequenciamento do tumor e justificativa para osimertinibe nessa configuração molecular.
Toxicidade: previsível e gerenciável
Comparado aos TKIs 1ª/2ª gen, o osimertinibe tem perfil de toxicidade mais favorável — sem o rash papulopustular intenso e a diarreia profusa típicos do erlotinibe/afatinibe.
Mais frequentes: diarreia leve-moderada, paroníquia, rash leve, fadiga, anorexia. Manejo simples (loperamida, cuidados de pele).
Mais graves mas menos frequentes: prolongamento de QTc (monitorar ECG, sobretudo com antiarrítmicos ou antifúngicos azólicos) e pneumonite intersticial (1-3%, pode ser fatal — sintomas respiratórios novos exigem TC de tórax e suspensão).
Também há cardiotoxicidade com queda de fração de ejeção em parte dos pacientes — monitoramento ecocardiográfico periódico vira parte do cuidado em uso prolongado.
Em uso prolongado (adjuvante, 3 anos), o monitoramento cardíaco e pulmonar periódico vira parte do cuidado.
Como pleitear o Tagrisso na negativa
Primeiro: negativa por escrito. O argumento típico é “fora do Rol” (em adjuvante), “use erlotinibe primeiro” (em 1ª linha), ou “mutação não enquadrada” (em atípicas).
Segundo: relatório oncológico — diagnóstico (NSCLC adenocarcinoma), estadiamento (TNM), resultado do teste molecular (mutação EGFR específica: deleção 19, L858R, T790M, G719X), tratamentos prévios.
Inclua a justificativa pela escolha do osimertinibe — 1ª linha por FLAURA, adjuvante por ADAURA, 2ª linha em T790M+, ou indicação fundamentada em mutação atípica.
Em situações fora do Rol da ANS, a ADI 7.265 do STF (setembro de 2025) respaldou cobertura para tratamentos com registro Anvisa, prescrição fundamentada e ausência de alternativa equivalente.
Em NSCLC com metástase cerebral em progressão, em NSCLC ressecado com janela curta para iniciar adjuvante, ou em NSCLC metastático em piora clínica, a tutela de urgência é o caminho.
Veja o guia geral do que fazer quando o plano nega medicamento e os hubs paralelos: Lorbrena (ALK 3ª gen), Alecensa (ALK 2ª gen), Tabrecta (MET exon 14).
Mais informações
Se você passou por uma negativa de cobertura do Tagrisso ou tem dúvidas sobre o caminho a seguir, pode entrar em contato com a Rosenbaum Advogados para que a sua situação seja analisada.