O Rydapt® (princípio ativo midostaurina) é um medicamento oral oncológico com duas indicações muito diferentes entre si: leucemia mieloide aguda (LMA) com mutação FLT3, em combinação com quimioterapia, e mastocitose sistêmica avançada, em monoterapia.
É um inibidor multi-tirosina-quinase com atividade contra FLT3 (alvo principal em LMA), KIT mutado D816V (alvo principal em mastocitose), além de PKC, PDGFR, VEGFR e outros.
Custo mensal entre R$ 30 mil e R$ 50 mil. A dose e duração variam radicalmente entre as duas indicações — em LMA é uso curto durante consolidação; em mastocitose é tratamento contínuo de longo prazo.
LMA com FLT3: a mutação que define mau prognóstico
A leucemia mieloide aguda (LMA) é uma proliferação maligna de mieloblastos da medula óssea. Em adultos, é uma das leucemias agudas mais comuns. Tratamento intensivo envolve quimioterapia de indução (esquema 7+3 com citarabina e antraciclina) seguida de consolidação.
Cerca de 25-30% dos casos de LMA apresentam mutações no gene FLT3 (FMS-like tyrosine kinase 3) — particularmente FLT3-ITD (internal tandem duplication) e FLT3-TKD (tyrosine kinase domain). Essas mutações se associam a maior taxa de recidiva e pior sobrevida.
Por anos, FLT3 mutado significava prognóstico desfavorável sem opção terapêutica direcionada. Em 2017, o estudo RATIFY mostrou que adicionar midostaurina à quimioterapia padrão melhorava significativamente a sobrevida em LMA FLT3+. Mudança de paradigma.

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Como o Rydapt entra no protocolo de LMA
Em LMA FLT3+, o Rydapt é integrado ao tratamento intensivo padrão. Esquema:
Indução: durante os ciclos de 7+3, o Rydapt é dado nos dias 8-21 de cada ciclo (50 mg duas vezes ao dia).
Consolidação: durante os ciclos de altas doses de citarabina (HiDAC), o Rydapt é dado novamente nos dias 8-21 de cada ciclo.
Manutenção (em alguns protocolos): por 12 meses após consolidação, o Rydapt pode ser continuado em monoterapia (50 mg duas vezes ao dia continuamente).
A duração total em LMA é tipicamente de 6-18 meses, incluindo todas as fases. Em pacientes que vão para transplante alogênico, o Rydapt geralmente é interrompido antes do condicionamento.
Mastocitose sistêmica: a outra indicação e o KIT D816V
A mastocitose sistêmica é uma doença rara em que mastócitos anormais (células do sistema imune normalmente envolvidas em alergia) proliferam descontroladamente em vários órgãos — medula óssea, pele, fígado, baço, trato GI.
Em formas agressivas (mastocitose sistêmica agressiva, leucemia de mastócitos, mastocitose com neoplasia hematológica associada), os sintomas são intensos: episódios de flushing, anafilaxia, dor abdominal, infiltração tecidual com falência orgânica.
A maioria dos casos é causada por mutação KIT D816V — uma alteração ativadora na proteína KIT (mesmo alvo do imatinibe em LMC, mas com mutação resistente ao imatinibe). A midostaurina é um dos poucos inibidores ativos contra KIT D816V.
Em mastocitose sistêmica avançada, o Rydapt é dado em 100 mg duas vezes ao dia continuamente — dose maior que em LMA, e tratamento de longo prazo (anos).
Efeitos colaterais característicos: GI proeminente
Os efeitos colaterais mais comuns do Rydapt são gastrointestinais: náuseas, vômitos, diarreia. Frequentes e às vezes intensos, exigindo antieméticos e suporte.
Outros: fadiga, febre, edema, hiperglicemia, citopenias (queda de hemoglobina, neutrófilos, plaquetas — particularmente importante em LMA onde o paciente já está com medula óssea comprometida).
Em LMA, o monitoramento exige acompanhamento próximo do hemograma. Em mastocitose, o acompanhamento crônico exige atenção a infecções e progressão da doença.
Preço, duração variável e a economia da indicação dupla
O Rydapt é vendido em cápsulas de 25 mg. Em LMA (50 mg 2x/dia, 100 mg/dia total), uma caixa típica suficiente para um ciclo de 14 dias custa entre R$ 15 mil e R$ 25 mil.
Em mastocitose (100 mg 2x/dia, 200 mg/dia total), a dose é o dobro — caixa suficiente para 14 dias custa entre R$ 30 mil e R$ 50 mil.
Em LMA, o custo total no tratamento de 6-18 meses fica entre R$ 200 mil e R$ 500 mil. Em mastocitose, o tratamento contínuo por anos pode ultrapassar R$ 1 milhão.
Como medicamento de alto custo em duas indicações específicas, o Rydapt é alvo recorrente de negativa.
Cobertura, indicações específicas e o argumento da mutação
A midostaurina está no Rol da ANS para LMA FLT3+ em combinação com quimioterapia, e para mastocitose sistêmica avançada (formas agressivas e leucemia de mastócitos), com critérios das Diretrizes de Utilização (DUT).
As negativas frequentes envolvem: questionamento da documentação molecular (laudo FLT3 ou KIT D816V), uso em fase de manutenção (indicação às vezes não totalmente alinhada com a DUT), e mastocitose indolente ou indeterminada (indicação restrita a formas agressivas).
Em situações fora dos critérios estritos do Rol, vale a ADI 7.265 do STF (setembro de 2025).
O argumento da ausência de alternativa equivalente é forte: em LMA FLT3+, o midostaurina é o único combinado com quimio de indução; em mastocitose KIT D816V, é uma das poucas opções.
Caminho prático em LMA ou mastocitose
Primeiro: negativa por escrito, com justificativa e protocolo.
Segundo: relatório onco-hematológico — diagnóstico (CID, LMA ou mastocitose sistêmica), classificação detalhada, laudo molecular (FLT3-ITD/TKD em LMA, KIT D816V em mastocitose), tratamentos prévios se aplicável, fase atual do protocolo, prescrição com cronograma.
Em LMA em indução, a tutela de urgência tem peso máximo — janela terapêutica estreita. Em mastocitose agressiva, igualmente. Veja o guia geral sobre o que fazer quando o plano nega medicamento e os hubs paralelos: Iclusig (TKI BCR-ABL T315I), Blincyto (BiTE em LLA).
Mais informações
Se você passou por uma negativa de cobertura do Rydapt ou tem dúvidas sobre o caminho a seguir, pode entrar em contato com a Rosenbaum Advogados para que a sua situação seja analisada.
Este caso integra o panorama do Observatório Rosenbaum de Planos de Saúde, levantamento de mais de 43 mil decisões públicas do TJSP sobre planos de saúde.