
O Calquence® (princípio ativo acalabrutinibe) é um remédio oral indicado para leucemia linfoide crônica (LLC), linfoma de células do manto e outras neoplasias hematológicas de células B.
É um inibidor de BTK de segunda geração — desenhado para superar limitações do Imbruvica (ibrutinibe), em especial os efeitos cardiovasculares e sangramento.
Como antineoplásico oral, é tomado em casa, com custo mensal entre R$ 22 mil e R$ 35 mil. Quando o plano de saúde nega a cobertura, há base sólida para questionar — pela Lei 12.880/2013 e pela jurisprudência consolidada em BTK inibidores.
A segunda geração dos BTK: por que veio depois do Imbruvica
O Imbruvica (ibrutinibe) foi o primeiro inibidor de BTK aprovado, com impacto histórico no tratamento da leucemia linfoide crônica. Mas trouxe efeitos colaterais relevantes — em especial fibrilação atrial e sangramento.
Esses efeitos não vinham apenas do bloqueio da BTK em si, mas da inibição secundária de outras enzimas próximas — o ibrutinibe não é totalmente seletivo.
O acalabrutinibe foi desenhado para ser mais seletivo à BTK. O resultado clínico: menor incidência de fibrilação atrial e de sangramento, mantendo a eficácia anti-tumoral. Em estudos comparativos diretos em LLC, a tolerabilidade foi superior.
É por isso que, em pacientes com risco cardiovascular, hipertensão mal controlada ou histórico de fibrilação atrial, o Calquence costuma ser preferido em relação ao Imbruvica.
Quando o Calquence é indicado
A indicação principal é a leucemia linfoide crônica, em primeira linha ou após falha de tratamentos anteriores. Pode ser usado em monoterapia ou em combinação com obinutuzumabe.
Também é indicado para linfoma de células do manto em pacientes que já receberam pelo menos uma linha de tratamento prévio.
Em ambos os contextos, a escolha pelo Calquence é particularmente forte em pacientes com comorbidades cardiovasculares, que tornariam o ibrutinibe mais arriscado.
Também em pacientes que iniciaram com Imbruvica e desenvolveram efeitos intoleráveis — a troca para Calquence é uma opção sustentada por estudos.
Preço e como o tratamento é tomado
O Calquence é vendido em cápsulas de 100 mg. As cotações em 2026 ficam entre R$ 22 mil e R$ 35 mil por caixa com 60 cápsulas.
A dose padrão é 100 mg duas vezes ao dia, com intervalo de aproximadamente 12 horas. Uma caixa de 60 cápsulas dura cerca de 30 dias — uma caixa por mês.
O tratamento é contínuo enquanto houver resposta clínica. Em LLC, isso costuma significar anos. O custo anual fica em torno de R$ 250 a R$ 420 mil.
Como medicamento de alto custo, o Calquence é alvo de negativa — mesmo com sua posição já estabelecida como alternativa ao Imbruvica em vários cenários.
Cobertura: as três camadas que protegem o Calquence
O Calquence se beneficia de proteções jurídicas em três frentes. A primeira é a Lei 12.880/2013: antineoplásicos orais de uso domiciliar têm cobertura obrigatória — categoria que abrange o acalabrutinibe.
A segunda é a presença no Rol da ANS para algumas indicações com critérios das Diretrizes de Utilização (DUT) — em geral exigindo confirmação diagnóstica e linha de tratamento adequada.
A terceira é a ADI 7.265 do STF (setembro de 2025): em situações fora dos critérios estritos do Rol ou em combinações específicas, a cobertura pode ser exigida mediante prescrição fundamentada, ausência de alternativa equivalente, registro Anvisa e evidência científica.
Argumentos comuns de recusa
“Use Imbruvica primeiro”. Quando o hematologista justifica clinicamente a escolha direta pelo Calquence — por perfil cardiovascular do paciente, hipertensão, histórico de fibrilação, ou intolerância prévia ao ibrutinibe — a imposição do plano pode ser considerada abusiva.
“Linha de tratamento não autorizada”. Argumento em casos de linfoma de células do manto após múltiplas linhas. A defesa passa pelo relatório do hematologista com a justificativa clínica detalhada.
“Combinação não está no Rol”. Em LLC, o Calquence pode ser combinado com obinutuzumabe (anti-CD20). Quando o oncologista justifica essa combinação com base em estudos clínicos reconhecidos, a recusa baseada apenas em “combinação não prevista” tende a ser questionável.
Passos práticos para reverter
O primeiro passo é a negativa por escrito, com justificativa e protocolo.
Em paralelo, relatório hematológico detalhado — diagnóstico (CID), citogenética e mutações (deleção 17p, TP53, IGHV em LLC), comorbidades cardiovasculares e justificativa para o acalabrutinibe.
Em pacientes com LLC de alto risco (mutação 17p ou TP53) ou linfoma agressivo, o atraso pode permitir progressão. É cenário para tutela de urgência: pedido ao juiz para fornecimento antes do julgamento final.
O juiz analisa a probabilidade do direito e o perigo da demora. Casos bem instruídos costumam ter análise compatível com a urgência. Nenhum prazo é garantido. Veja o guia geral sobre o que fazer quando o plano nega medicamento.
Decisões da Justiça envolvendo Calquence e BTK inibidores
A jurisprudência sobre o Calquence segue a lógica consolidada nos antineoplásicos orais e nos inibidores de BTK. Medicamento com registro Anvisa, antineoplásico oral domiciliar (Lei 12.880/2013), com prescrição fundamentada, deve ser custeado pelo plano.
O Tema 990 do STJ ampara a cobertura inclusive em uso off-label com evidência científica.
Decisões em medicamentos próximos — como o Imbruvica (ibrutinibe), o BTK de primeira geração — confirmam o entendimento dos tribunais em LLC e linfomas.
Mais informações
Se você passou por uma negativa de cobertura do Calquence ou tem dúvidas sobre o caminho a seguir, pode entrar em contato com a Rosenbaum Advogados para que a sua situação seja analisada.