
O Pulmozyme® (princípio ativo alfadornase ou dornase alfa) é um medicamento inalado indicado para fibrose cística (FC) em pacientes com idade ≥5 anos.
É uma enzima DNase recombinante — quebra o DNA livre presente no muco espesso característico da FC, tornando-o menos viscoso e mais fácil de eliminar pela tosse e fisioterapia respiratória.
Custo mensal entre R$ 4 mil e R$ 7 mil. Tratamento contínuo, vitalício na FC. Diferente dos moduladores CFTR (Orkambi, Trikafta, Kalydeco), não atua no defeito molecular — atua nas consequências (muco espesso).
Por que o muco da fibrose cística tem tanto DNA
Na fibrose cística, a proteína CFTR defeituosa faz as secreções pulmonares ficarem extremamente espessas e viscosas. O muco viscoso é um terreno fértil para infecções bacterianas crônicas (Pseudomonas, Staphylococcus, Burkholderia).
As infecções crônicas atraem neutrófilos em massa para os pulmões. Os neutrófilos liberam armas para combater bactérias — incluindo “armadilhas extracelulares de neutrófilos” (NETs), que são redes de DNA carregadas com enzimas microbicidas.
Quando os neutrófilos morrem, liberam todo seu DNA no muco. O resultado é um muco extremamente rico em DNA livre — espesso, viscoso, difícil de eliminar. Esse acúmulo perpetua o ciclo de obstrução, infecção, inflamação.
A DNase recombinante: cortar o “fio” do muco
A DNase (desoxirribonuclease) é uma enzima que quebra moléculas de DNA em fragmentos menores. A alfadornase é uma versão recombinante humana, produzida em laboratório.
Quando inalada, a alfadornase chega aos pulmões e quebra o DNA livre no muco, reduzindo sua viscosidade. O muco fica mais fluido, mais fácil de mobilizar pela tosse e pela fisioterapia respiratória.
O efeito é puramente mucolítico — não trata a infecção, não corrige a CFTR, não modula imunidade. Mas a melhora da depuração mucociliar tem impacto significativo em função pulmonar, frequência de exacerbações e qualidade de vida.
Onde o Pulmozyme se encaixa: pilar do tratamento sintomático
O tratamento da fibrose cística envolve várias camadas. O Pulmozyme é parte da camada de terapia sintomática crônica, ao lado de outras intervenções:
Fisioterapia respiratória diária (drenagem postural, percussão, dispositivos de vibração positiva expiratória).
Solução salina hipertônica inalada (3-7%), que também tem efeito mucolítico por osmose.
Antibióticos (inalados, orais, IV) para tratar e suprimir infecções crônicas (Pseudomonas aeruginosa, principalmente).
Enzimas pancreáticas, vitaminas lipossolúveis, suporte nutricional intenso.
E em pacientes elegíveis: moduladores CFTR (Trikafta, Orkambi, Kalydeco) que atuam no defeito molecular subjacente.
O Pulmozyme é parte fundamental dessa orquestra — não é substituível por outros mucolíticos (acetilcisteína oral, por exemplo, não tem o mesmo benefício comprovado em FC).
Esquema e cuidados com a inalação
O Pulmozyme é administrado por nebulização — não funciona em inalador pressurizado nem em nebulizador ultrassônico (a enzima é desnaturada por aquecimento ou pressão). Exige nebulizador a jato compatível.
A dose padrão é 2,5 mg uma vez ao dia (ou duas vezes ao dia em casos selecionados). Cada ampola contém uma dose única e deve ser usada imediatamente após abertura. Tempo de nebulização: 10-15 minutos.
Sequência típica: broncodilatador → solução salina hipertônica → Pulmozyme → fisioterapia respiratória → antibiótico inalado. A coordenação é importante para maximizar eficácia. Tudo isso, diariamente, pelo resto da vida.
Efeitos colaterais: voz rouca e broncoespasmo raro
Os efeitos colaterais do Pulmozyme são geralmente leves: alteração da voz (mais comum, voz rouca temporária após inalação), faringite, laringite, rinite, conjuntivite, rash cutâneo.
Em casos raros, broncoespasmo paradoxal — exigindo broncodilatador prévio em pacientes susceptíveis. Ocorre principalmente em pacientes com hiper-reatividade brônquica conhecida.
A formação de anticorpos anti-DNase é descrita em uso prolongado, mas geralmente não tem significado clínico — não compromete eficácia nem causa reações sistêmicas.
Preço e o custo cumulativo da terapia diária
O Pulmozyme é vendido em caixas com ampolas únidose de 2,5 mg cada. Caixa com 30 ampolas (suficiente para 30 dias no esquema padrão) custa entre R$ 4 mil e R$ 7 mil.
Custo anual entre R$ 50 mil e R$ 85 mil. Tratamento vitalício na FC. Cumulativo ao longo de décadas de vida pode chegar a R$ 2-3 milhões por paciente.
Significativamente mais barato que os moduladores CFTR (Trikafta, Orkambi), mas ainda medicamento de alto custo e parte essencial do tratamento crônico.
Cobertura, indicação consolidada e o argumento da função pulmonar
A alfadornase está no Rol da ANS para fibrose cística em pacientes ≥5 anos, com critérios das Diretrizes de Utilização (DUT). A documentação exige diagnóstico confirmado de FC.
As negativas frequentes envolvem: idade pediátrica abaixo de 5 anos (uso off-label em alguns centros), questionamento da função pulmonar mínima exigida pela DUT, e combinação com outros tratamentos inalados.
Em situações fora dos critérios estritos do Rol, vale a ADI 7.265 do STF (setembro de 2025). A jurisprudência sobre Pulmozyme em FC é amplamente favorável — é tratamento padrão estabelecido há décadas, com benefício comprovado em estudos randomizados.
Caminho prático em fibrose cística
Primeiro: negativa por escrito, com justificativa e protocolo.
Segundo: relatório pneumológico ou pediátrico — diagnóstico (CID, FC confirmada por teste do suor e/ou teste genético), idade, função pulmonar (espirometria com FEV1 quando aplicável), histórico de exacerbações, prescrição com cronograma.
Em FC com função pulmonar em deterioração, a tutela de urgência tem peso — qualquer atraso no tratamento crônico acelera a perda funcional.
Veja o guia geral sobre o que fazer quando o plano nega medicamento e os hubs paralelos em FC: Trikafta, Orkambi.
Mais informações
Se você passou por uma negativa de cobertura do Pulmozyme ou tem dúvidas sobre o caminho a seguir, pode entrar em contato com a Rosenbaum Advogados para que a sua situação seja analisada.