
O Jemperli® (princípio ativo dostarlimabe) é um anticorpo monoclonal anti-PD-1 com uma indicação que rompe a lógica tradicional da oncologia: não é definido pelo tipo de câncer, mas por uma assinatura molecular compartilhada por vários tipos.
Aprovado para câncer de endométrio recidivado/avançado com deficiência de reparo de mau pareamento (MMR-d) ou instabilidade microssatélite alta (MSI-H). E mais recentemente para outros tumores sólidos com essa assinatura.
Custo por ciclo entre R$ 25 mil e R$ 40 mil. Aplicado por infusão intravenosa a cada 3 semanas (primeiras 4 doses) ou a cada 6 semanas (manutenção). Como medicamento de alto custo, alvo recorrente de negativa — especialmente em indicações pan-tumor.
MMR-d e MSI-H: a assinatura que transformou a oncologia
Em algumas células tumorais, o sistema de reparo de mau pareamento (MMR, mismatch repair) está defeituoso. Esse sistema é uma “polícia interna” que corrige erros de pareamento de bases durante a replicação do DNA. Quando ele falha, erros se acumulam.
A consequência: o DNA da célula tumoral acumula mutações em regiões repetitivas (microssatélites) — o que se chama instabilidade microssatélite alta (MSI-H). As células tumorais ficam “hipermutadas”, com milhares de mutações somáticas.
Essa hipermutação tem uma consequência paradoxal: gera muitos neoantígenos — proteínas alteradas que o sistema imune reconhece como “estranhas”. Tumores MMR-d/MSI-H são, portanto, tumores imunologicamente “visíveis”. E respondem espetacularmente a imunoterapia com anti-PD-1.
Por que dostarlimabe e não Keytruda?
O Keytruda (pembrolizumabe) também é anti-PD-1 e tem indicação para tumores MMR-d/MSI-H. Por que existe o Jemperli?
Razões práticas e clínicas. O Jemperli tem um esquema de manutenção a cada 6 semanas mais flexível, foi o primeiro anti-PD-1 aprovado especificamente para câncer de endométrio, e em alguns estudos demonstrou eficácia particularmente notável em endométrio (estudo GARNET).
Mais recentemente, o dostarlimabe ganhou atenção espetacular: o estudo de Cercek/Diaz (Memorial Sloan Kettering) em câncer retal MMR-d localmente avançado mostrou resposta completa em 100% dos primeiros pacientes.
Sem necessidade de cirurgia ou radioterapia. Um resultado raríssimo na oncologia.
Câncer de endométrio: a indicação principal
O câncer de endométrio é o câncer ginecológico mais comum em países desenvolvidos. Em estágios iniciais, cirurgia é curativa na maioria dos casos. Em estágios avançados ou recidivados, opções têm sido limitadas.
Aproximadamente 20-30% dos cânceres de endométrio são MMR-d/MSI-H — uma fração significativa. Antes do Jemperli, essas pacientes recebiam quimioterapia (carboplatina + paclitaxel) com benefício modesto.
Com o Jemperli, as respostas em pacientes com endométrio MMR-d são frequentemente profundas e duradouras. Resposta objetiva em mais de 40% dos pacientes, com muitas respostas durando anos. Mudança radical no prognóstico.
Indicação consolidada: endométrio MMR-d recorrente ou avançado após platina. E em alguns países, em primeira linha em combinação com platina-paclitaxel em MMR-d.
A indicação pan-tumor: um conceito revolucionário
Em 2021, o Jemperli também recebeu aprovação para tumores sólidos MMR-d em geral após progressão a tratamento prévio — câncer colorretal, gástrico, ovário, pancreático, biliar, próstata, qualquer um — desde que a assinatura MMR-d esteja confirmada.
Isso é o conceito de indicação tumor-agnóstica, ainda raro na oncologia. Junto com Vitrakvi (NTRK) e algumas indicações do Keytruda, redefine o paradigma: o que importa é a assinatura molecular, não o órgão de origem.
A documentação do MMR-d (por imuno-histoquímica das 4 proteínas — MLH1, MSH2, MSH6, PMS2) ou MSI-H (por PCR ou NGS) é a peça central. Sem o teste, não há indicação. O laudo molecular é a porta de entrada.
Preço, esquema e os imune-eventos adversos
Cada infusão de Jemperli (500 mg nas primeiras 4 doses, depois 1.000 mg) custa entre R$ 25 mil e R$ 40 mil. A frequência inicial é a cada 3 semanas (4 doses), depois passa para cada 6 semanas em manutenção.
O tratamento é mantido enquanto houver resposta — pode durar 2 anos ou mais, ou até progressão/toxicidade. Custo anual entre R$ 250 mil e R$ 400 mil.
Os efeitos colaterais típicos de imunoterapia anti-PD-1: tireoidite, pneumonite, colite, hepatite, dermatite, hipofisite, nefrite — qualquer órgão pode ser afetado por inflamação imuno-mediada.
A maioria é manejável com corticoides; alguns casos exigem suspensão definitiva.
Cobertura, biomarcador e o argumento da assinatura
O dostarlimabe está no Rol da ANS para câncer de endométrio MMR-d recidivado/avançado, com critérios das Diretrizes de Utilização (DUT). A documentação obrigatória é o laudo de MMR-d ou MSI-H.
As negativas frequentes envolvem: indicação pan-tumor (uso em câncer colorretal, ovário, outros, MMR-d), uso em retal MMR-d localmente avançado (cenário inovador pós-Cercek), uso em primeira linha em endométrio.
Em situações fora dos critérios estritos do Rol, vale a ADI 7.265 do STF (setembro de 2025). O argumento da seleção molecular (MMR-d/MSI-H confirmada) é central: o tratamento é tão específico quanto o teste que ele depende, e os dados de eficácia são robustos.
Caminho prático e o peso do laudo molecular
Primeiro: negativa por escrito, com justificativa e protocolo.
Segundo: relatório oncológico — diagnóstico (CID, tipo do tumor primário), estadiamento, laudo de MMR-d (imuno-histoquímica das 4 proteínas) ou MSI-H (PCR/NGS), linhas anteriores de tratamento, prescrição com cronograma.
Em câncer metastático com progressão, a tutela de urgência tem peso. Veja o guia geral sobre o que fazer quando o plano nega medicamento e os paralelos: Keytruda (também anti-PD-1 com indicação MMR-d), Vitrakvi (outro tumor-agnóstico).
Mais informações
Se você passou por uma negativa de cobertura do Jemperli ou tem dúvidas sobre o caminho a seguir, pode entrar em contato com a Rosenbaum Advogados para que a sua situação seja analisada.
Este caso integra o panorama do Observatório Rosenbaum de Planos de Saúde, levantamento de mais de 43 mil decisões públicas do TJSP sobre planos de saúde.