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Kisunla (Donanemabe) e Leqembi (Lecanemabe) pelo plano de saúde

Direito à Saúde, Remédio
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Publicado: setembro 19, 2023 Atualizado: agosto 30, 2026
Tempo estimado de leitura: 11 minutos

O plano de saúde pode ser obrigado a cobrir o Kisunla (donanemabe) e o Leqembi (lecanemabe) no Alzheimer em fase inicial. Os dois têm registro na Anvisa, e é esse registro que abre a porta da cobertura mesmo sem previsão expressa no Rol da ANS.

A negativa mais comum vem embalada em três frases: “não consta no Rol”, “tratamento experimental” ou “estágio da doença incompatível”. A primeira não é obstáculo automático, a segunda é tecnicamente falsa e a terceira depende de laudo — e é onde o caso se ganha ou se perde.

O Leqembi®, de princípio ativo lecanemabe-irmb, e o Kisunla®, de princípio ativo donanemabe, são os primeiros tratamentos modificadores da doença aprovados para o Alzheimer em estágio leve. Não são mais um sintomático como a donepezila ou a memantina.

Os dois reduzem a placa amiloide no cérebro, que é o substrato fisiopatológico da doença, e desaceleram o declínio cognitivo. Por isso passaram a figurar entre os pedidos mais caros e mais frequentes nas discussões de negativa de cobertura.

O custo fica entre R$ 200 mil e R$ 350 mil por ano só do medicamento, sem contar os exames de monitoramento. É um valor que coloca o tratamento na faixa do medicamento de alto custo, com tudo o que isso significa na hora da autorização.

O plano de saúde é obrigado a cobrir Kisunla ou Leqembi?

Sim, quando o caso preenche os requisitos técnicos e legais. Nenhum dos dois consta expressamente do Rol de Procedimentos da ANS, e isso muda o caminho — mas não fecha a porta.

O STF fixou na ADI 7.265, julgada em 18 de setembro de 2025, que o Rol é taxativo com exceções controladas. A cobertura fora da lista é devida quando cinco requisitos aparecem juntos.

Requisito da ADI 7.265Como isso aparece no caso do Alzheimer
Prescrição por médico assistente habilitadoRelatório do neurologista que acompanha o paciente, com CID, estadiamento e histórico
Sem negativa expressa da ANS nem análise de incorporação pendentePonto a verificar caso a caso, porque o status de análise dos anti-amiloides muda a cada ciclo do Rol
Ausência de alternativa adequada no RolDonepezila e memantina são sintomáticas e não modificam o curso da doença, então não substituem
Evidência científica de alto nívelEstudos de fase 3 Clarity AD e TRAILBLAZER-ALZ 2, com desfecho cognitivo primário positivo
Registro na AnvisaCumprido pelos dois: Kisunla em 22/04/2025 e Leqembi em 22/12/2025

O requisito do registro na Anvisa costuma ser o mais decisivo, porque é ele que separa o medicamento aprovado do produto ainda importado sob autorização excepcional. Kisunla e Leqembi já passaram desse ponto.

Estudo Rosenbaum — decisões públicas de planos de saúde

Em 43.917 decisões de mérito analisadas pelo escritório, os pedidos de medicamento tiveram desfecho favorável ao consumidor em 79,1% dos casos, sobre 6.950 decisões. Quando o medicamento estava fora do Rol da ANS, o índice foi de 87,4%, sobre 4.316 decisões.

Fonte: Observatório de Planos de Saúde do escritório. O recorte fora do Rol é majoritariamente anterior à ADI 7.265, julgada em setembro de 2025. Levantamento de decisões públicas — não representa casos do escritório; cada caso é único e não há promessa de resultado.

Kisunla e Leqembi no Brasil: o que a Anvisa aprovou

As datas importam porque definem a linha entre “o plano não é obrigado” e “a negativa precisa de fundamento”. Antes do registro, o caminho seria a importação excepcional. Depois dele, a discussão muda de patamar.

DadoKisunla (donanemabe)Leqembi (lecanemabe)
Registro na AnvisaPublicado em 22/04/2025Publicado em 22/12/2025
Detentora do registroEli Lilly do BrasilEisai Laboratórios
Genótipo ApoE ε4 na bulaIndicado a heterozigotos ou não portadores; teste obrigatório antes de tratarMesma delimitação: heterozigotos ou não portadores do alelo ε4
Rol da ANSSem previsão expressaSem previsão expressa

As datas e as indicações vêm das fichas oficiais de novo registro da Anvisa para o Kisunla e para o Leqembi, consultadas em agosto de 2026.

Nos Estados Unidos o lecanemabe foi aprovado pelo FDA em janeiro de 2023 e o donanemabe em julho de 2024 — a defasagem de um a dois anos até o registro brasileiro é o padrão da classe.

A virada paradigmática: do “sem cura” ao “modifica o curso”

Por décadas, o Alzheimer foi tratado apenas com inibidores da colinesterase — donepezila, rivastigmina, galantamina — e com a memantina. São fármacos que melhoram sintomas cognitivos por meses, mas não alteram a progressão.

A hipótese amiloide, que aponta as placas de beta-amiloide como gatilho da neurodegeneração, orientou o desenvolvimento por 30 anos. Foram sucessivos fracassos: bapineuzumabe, solanezumabe, crenezumabe, gantenerumabe. Muitos questionaram a teoria.

O aducanumabe, vendido como Aduhelm e aprovado pelo FDA em 2021 sob caminho acelerado, foi controverso. A eficácia clínica era modesta e questionada, e a ARIA, frequente. Acabou retirado do mercado em 2024.

O lecanemabe e o donanemabe mudaram o cenário. Trouxeram estudos de fase 3 com desfechos cognitivos primários positivos, redução substancial de placa amiloide medida por PET e perfil de risco gerenciável. São os primeiros modificadores de doença verdadeiros.

Lecanemabe: o “limpador” das protofibrilas

O lecanemabe é um anticorpo monoclonal IgG1 humanizado que se liga a protofibrilas solúveis de beta-amiloide. É uma forma intermediária, anterior à placa formada, considerada particularmente neurotóxica.

O estudo pivotal Clarity AD acompanhou 1.795 pacientes com Alzheimer leve, todos com biomarcador amiloide positivo. O resultado foi uma redução de 27% no declínio cognitivo medido pela escala CDR-SB em 18 meses, comparado ao placebo, com queda substancial de placa amiloide ao PET.

O esquema é de infusão intravenosa de 10 mg/kg a cada duas semanas, mantida enquanto houver benefício clínico. Depois de 18 a 24 meses, alguns protocolos reduzem a frequência para mensal.

Donanemab: o “raspador” das placas estabelecidas

O donanemabe, vendido como Kisunla®, tem mecanismo distinto. Liga-se à forma piroglutamada do beta-amiloide, presente sobretudo nas placas já estabelecidas, e não nas protofibrilas solúveis.

O estudo pivotal TRAILBLAZER-ALZ 2 acompanhou 1.736 pacientes com Alzheimer precoce. Registrou redução de 35% no declínio na escala iADRS em 18 meses e, nos pacientes com tau intermediária, redução de 22% no CDR-SB.

O esquema é de infusão intravenosa mensal, com 700 mg nos três primeiros meses e 1.400 mg depois. E traz um diferencial único: o tratamento pode ser interrompido quando o PET amiloide demonstra clearance substancial, abaixo de 25 centiloides. É o protocolo de dose limitada.

A comparação fica clara assim: o lecanemabe faz limpeza contínua e o donanemabe faz raspagem programada até parar. Os dois nichos coexistem, e a escolha depende da carga amiloide inicial, das comorbidades, do perfil de risco de ARIA e da preferência do paciente.

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ARIA: o efeito adverso que define a classe

ARIA, sigla de Amyloid-Related Imaging Abnormalities, é a assinatura dos anti-amiloides. Aparece como edema vasogênico, a ARIA-E, ou como microhemorragias e hemossiderose superficial, a ARIA-H, detectadas em ressonância magnética.

A ARIA-E ocorre em 12% a 24% dos pacientes e a ARIA-H em 14% a 30%. A maioria é assintomática e só aparece na ressonância de rotina. Quando há sintoma, costuma ser cefaleia, confusão ou tontura, e raramente convulsão ou rebaixamento.

APOE ε4 e o risco aumentado

O genótipo APOE influencia diretamente o risco. Homozigotos ε4/ε4 têm risco substancialmente maior de ARIA-E, e foi justamente por isso que a Anvisa delimitou a indicação dos dois medicamentos a heterozigotos e a não portadores do alelo ε4.

A consequência prática é direta: a genotipagem APOE precisa ser feita antes de iniciar o tratamento, e o exame também entra no pedido de cobertura. Em heterozigotos ε3/ε4 o risco é intermediário e, em não portadores, mais baixo.

Anticoagulantes e o risco hemorrágico

A anticoagulação plena, com varfarina ou com os anticoagulantes orais diretos, é contraindicação relativa pelo risco amplificado de ARIA-H e de hemorragia parenquimatosa. A antiagregação isolada com AAS é tolerada.

Em pacientes que precisam manter a anticoagulação por fibrilação atrial ou prótese valvar, o risco-benefício é individual e frequentemente proibitivo para iniciar um anti-amiloide.

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Critérios de elegibilidade — a parte que mais gera negativa

Os planos negam Kisunla e Leqembi com frequência alta, e quase sempre por um destes quatro argumentos.

“Estágio fora da indicação”. Os dois são aprovados apenas para o Alzheimer leve, ou seja, comprometimento cognitivo leve pela doença ou demência leve, com CDR 0,5 ou 1. Na fase moderada a grave não há benefício comprovado e o risco de ARIA cresce, então esse argumento pode ser legítimo. É o ponto que mais exige laudo detalhado.

“Sem biomarcador amiloide positivo”. Esse critério é mesmo obrigatório. Sem PET amiloide positivo ou análise do líquor com Aβ42/Aβ40 reduzido e p-tau elevado, a indicação não se aplica. O custo do exame, de R$ 8 mil a R$ 15 mil no PET e de R$ 2 mil a R$ 4 mil no líquor, costuma ser o primeiro obstáculo.

“Genótipo ApoE ε4/ε4”. Aqui a bula brasileira dá razão à operadora: a indicação aprovada exclui os homozigotos. Tratar um paciente ε4/ε4 seria uso off-label, com discussão bem mais difícil e ônus probatório muito maior.

“Tratamento experimental”. Esse argumento não se sustenta. Há registro na Anvisa, no FDA e na EMA, e os dois medicamentos aparecem em diretrizes da Academia Brasileira de Neurologia e da Alzheimer’s Association.

Monitoramento: o protocolo é peso na decisão

Antes de iniciar são necessários a ressonância de base, para excluir microhemorragias prévias e espaços perivasculares dilatados, a genotipagem APOE e o biomarcador amiloide por PET ou líquor.

Durante o tratamento entram as ressonâncias seriadas, antes das infusões 5, 7 e 14 no lecanemabe, e antes das doses 2, 3, 4 e 7 no donanemabe, com exames adicionais sempre que houver sintoma neurológico.

O custo cumulativo de exames pode chegar a R$ 30 mil a R$ 50 mil em 18 meses. É um valor relevante e faz parte do que precisa ser coberto junto com o medicamento — pedir só o remédio, sem os exames, deixa metade do problema de fora.

Diante de ARIA-E assintomática e leve, mantém-se o tratamento com ressonância a cada um ou dois meses até a resolução. ARIA-E moderada a grave ou sintomática pede suspensão temporária. ARIA-H com mais de 10 microhemorragias ou com hemossiderose superficial leva à suspensão definitiva.

Como agir na negativa de Kisunla ou Leqembi

O primeiro passo é obter a negativa por escrito, com a fundamentação técnica da operadora. Sem esse documento, a discussão começa sem chão.

Depois vem o relatório neurológico, que precisa reunir o diagnóstico de Alzheimer leve com CDR 0,5 ou 1, os escores MMSE ou MoCA, o biomarcador amiloide positivo, a genotipagem APOE, a ressonância de base e a ausência de contraindicações como anticoagulação plena, AVC prévio extenso ou microhemorragias múltiplas.

Nas situações fora do Rol da ANS vale a ADI 7.265 do STF, que consolidou a cobertura quando há registro na Anvisa, prescrição fundamentada e ausência de alternativa equivalente — veja o quadro completo do tema.

Pela janela curta do Alzheimer leve, a tutela de urgência tem peso decisivo. A doença progride, e quando o quadro alcança o CDR 2 o próprio critério de elegibilidade se perde — a demora, aqui, resolve o caso contra o paciente.

Se o plano negou o Kisunla, o Leqembi ou outro medicamento de alto custo, você pode fazer uma análise online em cerca de um minuto e ver qual tem sido o entendimento judicial em casos parecidos com o seu.

Também pode ajudar o guia do que fazer quando o plano nega medicamento e o panorama de como processar plano de saúde.

O plano de saúde é obrigado a cobrir Kisunla (donanemabe)?
Pode ser, quando o caso preenche os requisitos. O Kisunla tem registro na Anvisa publicado em 22/04/2025, mas não consta expressamente do Rol da ANS. Nessa situação aplica-se a ADI 7.265 do STF, julgada em 18/09/2025, que fixou o Rol como taxativo com exceções controladas: a cobertura fora da lista é devida quando há prescrição por médico assistente habilitado, ausência de negativa expressa da ANS ou de análise de incorporação pendente, ausência de alternativa adequada no Rol, evidência científica de alto nível e registro na Anvisa. No Alzheimer leve com biomarcador amiloide positivo, os cinco requisitos costumam estar presentes.
Qual a diferença entre lecanemabe (Leqembi) e donanemabe (Kisunla)?
O mecanismo é diferente: o lecanemabe liga-se a protofibrilas solúveis de beta-amiloide e o donanemabe liga-se à forma piroglutamada presente nas placas já estabelecidas. O esquema também muda: o lecanemabe é infundido a cada duas semanas e é mantido enquanto houver benefício clínico, enquanto o donanemabe é mensal e pode ser interrompido quando o PET demonstra clearance amiloide, no chamado protocolo de dose limitada. Na desaceleração do declínio, os dois ficam na faixa de 27% a 35% em 18 meses nas escalas dos estudos pivotais. A ARIA é frequente nos dois. A escolha considera carga amiloide inicial, genótipo APOE, perfil de risco e a preferência entre tratamento contínuo e limitado no tempo.
Paciente com genótipo APOE ε4/ε4 pode receber Kisunla ou Leqembi?
Não pela indicação aprovada no Brasil. A Anvisa delimitou os dois registros a pacientes adultos heterozigotos ou não portadores do alelo ε4 da apolipoproteína E, porque os homozigotos ε4/ε4 apresentaram risco bem maior de ARIA. Por isso a genotipagem APOE deve ser feita antes de iniciar o tratamento. Prescrever a um homozigoto seria uso off-label, com discussão jurídica mais difícil e necessidade de justificativa clínica robusta. Nesse cenário, a negativa da operadora tende a ter fundamento.
O que é ARIA e quão grave é?
ARIA, sigla de Amyloid-Related Imaging Abnormalities, é o efeito adverso de classe dos anti-amiloides: edema vasogênico, chamado ARIA-E, ou microhemorragias e hemossiderose superficial, chamadas ARIA-H, detectados em ressonância magnética. A ARIA-E ocorre em 12% a 24% dos pacientes e a ARIA-H em 14% a 30%. A maioria é assintomática e aparece apenas na ressonância de rotina. Quando há sintoma, costuma ser cefaleia, confusão ou tontura, e raramente convulsão. O manejo prevê suspensão temporária nos quadros moderados a graves ou sintomáticos, com ressonância seriada até a resolução. Casos graves são raros e exigem suspensão definitiva.
Por que é preciso fazer PET amiloide ou punção lombar antes?
Porque é critério obrigatório: sem biomarcador positivo não há indicação do tratamento. A clínica do Alzheimer se confunde com outras demências, como a por corpos de Lewy, a frontotemporal e a vascular, que não respondem aos anti-amiloides. A confirmação biológica, por PET amiloide ou por análise do líquor com Aβ42/Aβ40 reduzido e p-tau elevado, garante que existe substrato amiloide a tratar. O custo do exame, de R$ 8 mil a R$ 15 mil no PET e de R$ 2 mil a R$ 4 mil no líquor, faz parte do que deve ser coberto pelo plano junto com o medicamento.
O plano pode trocar Kisunla ou Leqembi por donepezila ou memantina?
Pode tentar, alegando que existe alternativa terapêutica mais barata, mas a substituição é farmacologicamente inadequada. Donepezila e memantina são sintomáticas: melhoram a função cognitiva por alguns meses e não alteram a progressão da doença. Os anti-amiloides modificam o curso da doença e reduzem a placa amiloide. São tratamentos com mecanismos e objetivos distintos, em geral usados em conjunto no Alzheimer leve. Negar o anti-amiloide sob o argumento de que já existe donepezila prescrita não tem fundamento clínico, e a ausência de alternativa adequada no Rol é justamente um dos requisitos da ADI 7.265.
Quanto custa o tratamento com Kisunla ou Leqembi?
Só o medicamento fica entre R$ 200 mil e R$ 350 mil por ano no lecanemabe, infundido a cada duas semanas, e entre R$ 180 mil e R$ 280 mil no tratamento completo do donanemabe, que dura em média 18 meses até o clearance amiloide. A esse valor somam-se os exames: PET amiloide de R$ 8 mil a R$ 15 mil ou líquor de R$ 2 mil a R$ 4 mil no início, ressonâncias seriadas de R$ 6 mil a R$ 12 mil no primeiro ano e genotipagem APOE de R$ 500 a R$ 1.500. Em 18 meses o custo cumulativo pode ultrapassar R$ 400 mil, o que coloca o pedido entre os mais caros nas demandas contra planos de saúde.

Mais informações

Se você passou por uma negativa de cobertura do Kisunla ou do Leqembi, ou tem dúvidas sobre o caminho a seguir, pode entrar em contato com a Rosenbaum Advogados para que a sua situação seja analisada.

Leo Rosenbaum

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